Luiz Hugo Burin*
“A frase de Heráclito de Éfeso revela em muito a sala de aula: ‘ninguém se banha duas vezes no mesmo rio’. E ser professor é aprender a enfrentar desafios diferentes por todos os lados”
Comecei a aprender a tocar violão aos seis anos. Abraçava aquele instrumento que quase me escondia por inteiro. Ficavam à mostra minhas pernas, meus braços e minha cabeça, que teimava em decifrar os enigmas daquele monstro. Tentando salvar o retrato, a máquina zero esquecia um topete acima da minha testa.
O violão era do meu irmão mais velho. Estava sempre pendurado no quarto, no alto da parede. Impossível alcançá-lo sem subir numa cadeira. Lembro as broncas. O piá pode derrubar e quebrar. Quando menos esperavam, lá estava eu em mais um abraço, batendo nas cordas desafinadas, parecendo uma goteira desconexa. As pontas dos meus dedos de criança doíam. O som não saía nítido, e muitos acordes, eu não conseguia fazer. O braço do violão era muito largo para dedos pequenos. A teimosia em querer aprender era sempre maior que os resultados do tocador de violão.
Aos dezesseis anos, depois de uma prova de matemática, pensei em tomar o rumo da arte musical. Na época já tocava um pouco de piano, gaita e violão, disponíveis no colégio. Depois, o som da guitarra elétrica estimulava, dando charme especial às canções. Me apresentava tocando e cantando com colegas, nas festas promovidas pela escola. Vestindo roupas da moda, tudo era maravilhoso. Não podia faltar a calça boca de sino e uma cabeleira enorme que espantava as professoras. As gurias, nossas colegas, até não estranhavam. Na mente, um desejo enorme em desviar-me das incursões no mundo dos números. Procurei conselho com o professor de música. Falou que o estudo deveria ser prioridade. ‘Música, leva como um bom passatempo. Futuramente, talvez.’ Obedeci. Afinal, ele era um profissional, instrumentista e compositor. Nunca fui reprovado. E de alguma forma sobrevivi, aprendendo a conviver com os números e com a matemática.
Nas encruzilhadas que bifurcam a vida, o caminho das Ciências Humanas estava aberto. Enveredei por ele sendo professor. Profissão que faz a gente se apaixonar pela diversidade e riqueza das emoções do ser humano. Cada aluno é um mundo à parte. Não existe rotina nas mentes abertas. A frase de Heráclito de Éfeso revela em muito a sala de aula: “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. E ser professor é aprender a enfrentar desafios diferentes por todos os lados.
Na pandemia da Covid-19, eu, recém-aposentado, procurava meios para acompanhar as mudanças. ‘Música, leva como um bom passatempo…’.
Na loja de instrumentos, um jovem atendente me recebeu na porta. Os demais vendedores, de braços cruzados, olhavam resignados as ruas quase desertas. Todos usando máscaras no rosto, eram vítimas quase indefesas da pandemia. Avisei que só queria dar uma olhada. A fileira de violões pendurados no alto da parede chamava meus olhos. O jovem vendedor pediu que eu visse a qualidade e a beleza do som no violão que entregava em minhas mãos. Baixou a cabeça e falou que, havia três dias, nada vendera, por conta da pandemia. Que sua receita por comissão o estava deixando numa situação difícil. Mas, antes que eu dissesse que tenho violão em casa, o coração tomou as rédeas da situação e mudou os rumos da prosa. Os olhos do atendente brilharam diante daquele convencimento necessário. Subitamente, entendi que a Covid-19, extremamente cruel, precisava ser enfrentada. Ela seria incapaz de apagar os valores humanos que carregamos. Paguei a compra no caixa, acenando agradecido ao vendedor. E saí rua afora assobiando baixinho, com um violão novo nas costas dentro de um estojo macio.
*professor aposentado