Gumercindo Saraiva

“Era o tempo das degolas de ambos os lados, de muitas barbáries e desrespeito pela vida humana”

Acabei de ler um livro interessante sobre a História Gaúcha, de autoria de Cláudio Damin, intitulado Triste fim de Gumercindo Saraiva, morto em 1894, no município de Santiago, ao final da Revolução Federalista de 1893.

A República foi proclamada em 1889, um ano após a Abolição da Escravatura, e o Marechal Deodoro da Fonseca, velho e doente, foi nosso primeiro presidente, acarretando a viagem de D. Pedro II e de toda a Família Imperial para a Europa. Pouco mais de um ano depois, Deodoro renunciou, e assumiu a presidência do Brasil outro Marechal, o alagoano Floriano Peixoto, apelidado de Marechal de Ferro.

O gaúcho Gaspar Silveira Martins, famoso pelo dom de orador e que era senador do Império, exilou-se na Argentina, no bojo de uma das revoltas da Marinha contra a mudança do regime de governo nacional, e de lá organizou um “exército” invasor para lutar pela restauração do Império e também derrotar o republicano Júlio de Castilhos, que havia assumido o governo do Rio Grande, com os autoritarismos da época, na tentativa de manutenção do poder.

Em 1893, os Federalistas (maragatos de lenços colorados), comandados pelo gaúcho criado no Uruguay Gumercindo Saraiva e seu irmão, Aparício, invadiram as fronteiras rio-grandenses para tentar derrubar a jovem república de Floriano e os Castilhistas, que eram os Chimangos de lenços brancos, também alcunhados de Pica-paus. Marcharam até o Paraná e, de lá, retornaram combatendo forças do Exército, da Brigada Militar, e outras mobilizadas por políticos locais, como o então senador Pinheiro Machado.

Em agosto de 1894, travou-se um violento combate em Passo Fundo, com grandes perdas em vidas humanas, depois do que os Federalistas resolveram se retirar para a Argentina, para descansar os seus 5 mil homens, engordar a cavalhada, e adquirir mais armas e munições para voltar a combater. Era o tempo das degolas de ambos os lados, de muitas barbáries e desrespeito pela vida humana. O pai do Getúlio Vargas, Manoel Vargas, era chimango, e um seu tio, Dinarte Dorneles, maragato.

Quando escaramuçavam em pequenos enfrentamentos na região de Corovi, Gumercindo, que assistia aquelas peleias em campo aberto, estando observando o desempenho de seus comandados, montado a cavalo, acompanhado pelo major ajudante de ordens e um corneteiro, levou um tiro no peito, vindo de algum atirador inimigo não identificado, abatendo a ele e a seu cavalo. Foi mais de um tiro, portanto.

Depois de algumas horas de agonia, sendo transportado em uma carreta de bois, morreu e foi enterrado no Cemitério de Santo Antônio, que havia na região. Não recebeu nem honras, nem exéquias por parte da tropa que comandava e que se escapava acelerada da perseguição federalista.

Sua cova foi encontrada pelos inimigos, foi exumado, seu corpo violado, decapitado e algumas partes – barba, bigode e cabeça – levadas até a capital, para comprovar sua morte ao governador Júlio de Castilhos, que, inclusive, não as quis receber, enojado. O corpo do líder inimigo virou um troféu de guerra nas mãos dos inimigos Federalistas.

Findada a revolução e findo o governo de Júlio de Castilhos, assumiu o caçapavano Borges de Medeiros, que ficou 25 anos no poder, governando com mão de ferro, quando as eleições eram fraudadas, apesar dos cativos votos de cabresto.

É por isso que os mais antigos, diante do prenúncio de qualquer alvoroço, diziam: “Vem chegando o Gumercindo”…