Guerras que nos castigam

“O Mal está mais visível que o Bem. Porque o Mal é vaidoso e quer aparecer, e a bondade se faz no silêncio, no íntimo do ser que se sente irmão de todos os humanos”

O Dia da Mulher deste ano teve mais o que deplorar do que louvar. Os noticiários nos encheram de imagens da guerra que se generalizou. Oriente e Ocidente em ataques cada vez mais cruéis e que não têm como terminar. A cada ataque, uma retaliação ainda maior.

E para deixar-nos mais preocupados e sentidos, os feminicídios estão-se banalizando de tão frequentes. E sem o vislumbre de uma solução. Sociedade, Governo, Polícia, Justiça, Organizações Humanitárias reúnem-se, debatem, traçam metas de defesa das vítimas, mas os algozes encontram um meio de sacrificá-las.

Quando a Mulher ainda aceitava ser submissa ao homem, as agressões dentro do lar não eram da conta de ninguém. Era impossível prestar socorro, pois seria uma invasão de domicílio. Por vezes, o salvador corria risco de vida, ou até morria.

Mas outra miséria humana escancarou-se aos nossos olhos com as reportagens sobre estupros de vulneráveis. Desde a periferia até as mansões. Pobres e ricos explorando menores como objetos de prazer. Descartáveis.

O Mal está mais visível que o Bem. Porque o Mal é vaidoso e quer aparecer, e a bondade se faz no silêncio, no íntimo do ser que se sente irmão de todos os humanos.

Dois casos de submissão familiar, eu lembrei nestes dias. Numa morada, o marido era o Senhor Todo-Poderoso, que não oferecia o sustento completo – pois a mulher precisava fazer umas costurinhas para comprar o que faltava – e tudo exigia. Da porta da rua, ia reclamando se o almoço não estava pronto, se a casa não fora arrumada, se os filhos estavam na rua… E a esposa ouvia e corria para atendê-lo. Os filhos tentavam ficar invisíveis para não sofrerem castigos. Só depois que a filha mais velha foi para a faculdade e conviveu com colegas e professores educados é que chegou à conclusão de que a mãe devia dar-se valor e libertar-se. Houve a separação nada fácil, mas a família, liderada pela mãe, teve mais oportunidades na vida.

Outro casal que conheci parecia que era de um filme tecnicolor: os dois altos, elegantes, bem trajados, bonitos. Mas, para apreciar a figura da dama, eu só a via na sacada com o marido, jamais sozinha. Ele era major do Exército, e um ordenança é que trazia as encomendas de mercados ou lojas. Por ocasião de algum baile importante ou visita de generais ao Quartel, com banquetes e homenagens, o casal bonito embarcava numa bela limusine, cada qual mais fascinante.

Lembro-me de vê-la, uma vez, trajando um vestido branco, com um ombro descoberto, igual às estátuas das damas romanas de outrora. O cabelo lindamente penteado deixava ver o pescoço esguio, com um belo colar de pérola ou diamante. Era de deixar-me boquiaberta, na fase de adolescente que eu vivia.

Hoje, eu compreendo que a pobre senhora, no meio do luxo, vivia numa gaiola. Nem o prazer de escolher os próprios vestidos em uma loja da cidade. Eles vinham de grandes magazines de capitais ou do estrangeiro. Ela era a boneca do Major, nada mais.

Coitadinha, também foi vítima de feminicídio.