“Decidi também, e até já pedi para as minhas filhas, que, quando eu morrer, não façam velórios de passar a noite”
Quando jovem, procurando rumos para “vencer na vida”, decidi que o mundo andava muito complicado para saber de tudo, diante da velocidade de suas transformações, e que eu deveria abrir mão de entender certos assuntos ou de conhecer alguns conteúdos e focar nas coisas que realmente fossem mais importantes, segundo a minha hierarquia de valores. Avaliei que não seria possível entender de tudo e tentar compreender a todos para sobreviver em paz.
Hoje em dia, as coisas pioraram, com o desenvolvimento sem fim da tecnologia. Optei, então, por desconhecer assuntos aeronáuticos, marcas e tipos de carros e quaisquer mecanismos de aparelhos elétricos e eletrônicos. Nada disso me interessaria mais a partir daquela data. E assim o fiz, ignorando e evitando tratar sobre essas coisas.
Houve ocasiões em que precisei confessar a minha ignorância, e outras em que tive de me afastar de certos grupos adoradores desses dogmas, em determinadas reuniões sociais. Coisa bem chata é aquele sujeito que resiste em mudar de assunto enquanto a maioria dos presentes não tem interesse nas suas conversas, e ele fica insistindo com aquilo. As pessoas vão saindo de fininho, e ele nunca percebe, e acaba falando só para as paredes.
Depois, decidi que jamais viajaria para o fundo do mar, para o espaço sideral ou para o interior de qualquer caverna. Quem vive debaixo d’água é peixe, quem voa é passarinho e quem gosta de viver embaixo da terra é tatu ou defunto. Decidi também, e até já pedi para as minhas filhas, que, quando eu morrer, não façam velórios de passar a noite: se eu morrer de manhã, me enterrem cedo da tarde; se for pela tarde, me sepultem de tardezinha; e se acontecer de noite alta, me guardem de manhã bem cedo. Não me agrada ficar ali no caixão, indefeso contra olhares caridosos, de pena ou vinganças de qualquer um que se aproveite da situação para me desejar coisas ainda piores do que a morte.
Vivemos um tempo das especialidades. Cada um cuida do seu quadrado, e muitos de nós nem conseguimos cuidar da gente mesmo. Aquelas pessoas que sabiam de tudo estão desaparecendo da face da terra, e daqui a pouco tempo vai ser bem normal muitos nem saberem de nada mesmo.
O sabichão de hoje é um inconveniente social, até porque ele não se contenta em se achar. Ele faz uma força danada para exteriorizar as suas “sabedorias” e tentar convencer aos outros de que são, de fato, o suprassumo do conhecimento amplo e irrestrito. Acaba rejeitado pela maioria, porque hoje em dia, ninguém tem mais paciência e tempo para escutar lorotas. Pouca gente, somente alguns mais idosos e que perderam o trem do mundo moderno, ainda gasta seu precioso tempo de aposentado na terceira idade conversando fiado.
Já há algum tempo, na idade avançada, decidi também que a leitura poderia se tornar um bom instrumento de introspecção, conhecimento e autocrítica existencial. Quando mergulhamos na leitura, esquecemos o tempo, os problemas reais ou imaginários que enfrentamos e, muitas vezes, passamos a dialogar inconscientemente com os personagens que encontramos nas estórias. Uma boa leitura faz o tempo passar correndo pelo lugar que ocupamos. (Já escrevi sobre isso quando falei do meu casulo existencial, onde me abrigo introspectivo e solitário).
Quando quero jogar conversa fora, vou até a barbearia à moda antiga de um amigo. Ali, comparecem e se encontram personagens bem variadas de gente que vem cortar os cabelos ou raspar a barba, principalmente pessoas que moram no interior e cujas conversas me transportam para aqueles tempos idos de antanho.