A arte de bem vizinhar

Terminaram as conversas das vizinhas nos muros de suas casas. Estes subiram, não dá para enxergar o pátio ao lado. As cercas e portões eletrônicos são indispensáveis para a segurança que cada vez mais se necessita

Lembro com saudade meus primeiros vizinhos da casa nova, que agora já tem a idade da Loba. Na quadra, as casas foram surgindo aos poucos, até que não sobrou terreno vazio.

Casais novos, recém-casados, outros com filhos pequenos, em idade escolar. As primeiras visitas e oferecimentos de ajuda. E de informações. Padarias caseiras, mercados próximos que abrem aos domingos, cuidado com os cachorros brabos, na travessia da rua pelos pequenos, uma gama de recomendações de moradores já assentados para os novatos que chegam.

Depois, as reuniões para o café da tarde das donas de casa da quadra. Troca de receitas, de notícias, fotos dos filhos exibidas, amizades que se fortalecem pelo convívio e mútua ajuda. Eis que a hora de buscar os filhos na escola se aproxima, e é um alvoroço das mães em despedidas alegres e carinhosas.

Os maridos oferecem seus préstimos à nova vizinha, ajudando a pregar quadros e prateleiras nas paredes com sua potente furadora, bem como escadinhas de bom tamanho.

Tempos que se foram, não voltam mais. Vizinhos se mudaram para outro bairro, outra cidade ou se despediram para sempre. Quantos velórios bem chorados!

Mas é preciso andar para a frente, deixar as tristezas atrás, alegrar-nos com os novos vizinhos e com a vida que continua.

Agora, porém, são novos tempos. Terminaram as conversas das vizinhas nos muros de suas casas. Estes subiram, não dá para enxergar o pátio ao lado. As cercas e portões eletrônicos são indispensáveis para a segurança que cada vez mais se necessita. Para conversarmos com os vizinhos, o celular é o meio indicado. Encontros presenciais só na rua, no Supermercado, nas igrejas, ou festas. Quantos abraços e trocas de novidades nesses momentos.

Entretanto, minhas ajudantes me trazem outros relatos. Pessoas humildes de suas vilas, algumas subsidiadas pelo Governo, outras vivendo de biscates, alguns aposentados sustentando filhos, netos e agregados, não sobra verba para fazer muros. E as brigas são constantes, lixo atirado para o outro lado, cachorros avançando nas galinhas ou destruindo flores e plantas, crianças infernizando os animais domésticos, atiçando cães nos gatos, uma confusão danada!

Fiscais percorrendo as ruas, multando pela proliferação dos mosquitos, eletricistas cortando luz dos atrasados no pagamento, Corsan ameaçando…

Mas não faltam momentos de folia, basta uma gaitinha de boca, um chocalho, e a gafieira se improvisa. Vizinhos doentes ou mais velhos se queixam, não podem dormir.

O pior são as brigas das mulheres por ciúmes dos namorados ou companheiros. Engalfinham-se no meio da rua, puxam-se os cabelos, dão um espetáculo. Ainda mais grave é quando os homens se agridem com facas ou tiros que assustam a todos. E sempre há uma mulher apanhando do companheiro. Ou vice-versa.

Ainda bem que não é só isso. Lá são muitos os vizinhos que só fazem o bem, acalmam os ânimos, oferecem lanches aos pequenos que passam o tempo todo na rua, sem responsáveis à vista, telefonam à sua amiga diarista avisando que seu cachorro se soltou e está ameaçando quem passa…

Muitas dessas moradoras são as acompanhantes ou cuidadoras mais procuradas por familiares de cadeirantes, doentes ou portadores de Alzheimer, por seu zelo e competência. Também lá se encontram ótimos profissionais da construção civil e reparos de obras em moradias e ruas, que são essenciais para a vida numa comunidade.

O Bem e o Mal se encontram em toda a parte. A arte de bem vizinhar é saber escolher ou um ou outro.