“Esse grupo é natural de Santo Antônio das Missões, onde possui uma propriedade rural denominada Pago Santo, em homenagem às Missões Jesuíticas que os exércitos de Portugal e da Espanha exterminaram”
Nem sei se este assunto é do interesse de muita gente, e tampouco se todos os leitores têm conhecimento do acontecido, mas, para mim, que tenho profundas raízes cravadas na rica cultura gaúcha e que valoro a nossa história inegável, foi uma estrondosa quebra de tabu.
No domingo recém-passado de 12 de abril de 2026, um grupo musical genuinamente tradicionalista gaúcho apresentou-se em rede nacional, no palco do programa “Em Família”, da chata da Eliana, na famosa Rede Globo, pilchados e interpretando música genuinamente missioneira.
Esse grupo é natural de Santo Antônio das Missões, onde possui uma propriedade rural denominada Pago Santo, em homenagem às Missões Jesuíticas que os exércitos de Portugal e da Espanha exterminaram em 1756. Foi na Batalha de Caiboaté, em São Gabriel, onde cinco mil índios mal armados foram dizimados numa coxilha a campo aberto, que um de seus caciques guerreiros mais famosos, Sepé Tiaraju, foi morto em combate desigual.
Esses Guedes, da Família Guedes – Jorge, o pai, e seus três filhos, Caray, Anay e Andrezito –, já possuem uma carreira artística de sucesso, inclusive com turnês pela Europa, com a música regional em destaque. Noutro domingo passado, eles se apresentaram no mesmo programa, cantando uma música do Roberto Teixeira, e uma série de críticas e comentários invadiram as redes sociais, dizendo que nunca ninguém tinha tido coragem de colocar a nossa música regional a nível nacional e que, na verdade, havia um grande tabu quanto aos nossos regionalismos exacerbados.
Pois, no domingo, esse tabu foi quebrado, e pudemos assistir intérpretes gaúchos, trajando indumentária nativa, cantar “Potro sem Dono”, escrita pelo grande José Cláudio Machado, em 2004, no horário nobre de domingo à tarde, no maior canal de televisão do país.
Alguns dirão que o Gaúcho da Fronteira já havia se apresentado no programa antigo da Xuxa e que o Thomas Machado também já participou em programas de calouros da mesma emissora. Sim, mas com modelos diferentes e distintos: o Gaúcho mais para o lado do jocoso; e o Thomas no papel de gaiteiro, cantando músicas mais sertanejas. Inclusive, assisti uma entrevista dele declarando que, nas suas aparições, não permitiram que cantasse as nossas músicas mais de raiz.
Numa época em que nossos poetas, cantadores e, também, instrumentistas alargam as nossas fronteiras culturais pelo Brasil e pelo mundo, acredito que se iniciou a consolidação da cultura regional do Sul do Brasil para fora das nossas divisas, e isso somará argumentos para outros valores se mostrarem ao mundo naquilo que já cultuamos e exercitamos dentro dos CTG.
Já faz muito tempo que admiramos e aceitamos os forrozinhos nordestinos ou o modificado sertanejo, agora universitário, dos mineiros e paulistas. O samba já é universal e faz algum tempo. Luiz Gonzaga abriu fronteiras com o seu Baião lá pela década de 1960/1970, e agora, espero que os Guedes mostrem e demonstrem ao povo do nosso país continental a essência da nossa música nativa.