A sociedade vive com a sensação do Eterno Presente. Este sentimento surge da não reflexão da História, fazendo com que tenhamos a impressão de que as coisas, os pensamentos, as ações humanas, a forma como nos comportamos, a religião, as relações sociais, o comércio e as necessidades humanas sempre foram como são. É uma sensação anacrônica, resultado do desconhecimento histórico.

Nas próximas semanas, analisaremos documentos que mostram a primitiva Economia da Pecuária em nosso município – que tem uma raiz quase “extrativa” – e a relação desta com a Cultura do Gaúcho da Campanha, que ainda é reflexa nos hábitos sociais, alimentares, comportamentais e linguísticos dos habitantes da nossa região.

Para entender estas relações, nos permitamos mergulhar no tempo.

Primitivamente, o acampamento guarani que deu origem a Caçapava ficava nos entornos da Igreja Matriz. Foi ali que, em 1777, uma vanguarda dos Dragões de Rio Pardo se estabeleceu, transformando o antigo “pueblo” numa linha defensiva da fronteira luso-espanhola. A localidade era muito antiga, servindo de acampamento, aguada para os viajantes e posto de observação devido à altura do sítio, que permitia que um bombeador enxergasse a três léguas de distância. Dali, se podia controlar os imensos rebanhos de gado selvagem que viviam na região. Centenas de milhares de equinos, bovinos e muares ocupavam as imensas planícies do Rio Grande do Sul, correndo livremente pelas pradarias.

Importante lembrar que todos estes animais não são originários da América, sendo introduzidos no território por portugueses e espanhóis. Os grandes rebanhos selvagens, também conhecidos por “vacarias”, foram o resultado material das guerras de fronteira, falência de projetos ibéricos de ocupação dos territórios meridionais americanos ou mesmo descuido dos europeus, resultando na fuga ou abandono das criações nos imensos campos abertos do território rio-grandense.

Durante todo o século XVI, os ibéricos trataram das áreas do Sul da América com indiferença. Apenas duas modestas povoações foram fundadas pelos espanhóis, visando a fixação e a conquista do Chaco Meridional: Assunção (1537, por jesuítas) e Buenos Aires (1580, por militares).

A primeira entrada de jesuítas portugueses em território rio-grandense aconteceria logo depois, em 1605, quando um grupo de padres veio de São Paulo pelo litoral até a barra do Rio Tramandaí. Esta foi apenas uma excursão de reconhecimento. O litoral do Rio Grande do Sul era considerado uma área maldita e perigosa pelos ibéricos. A imensidão e a aparente desolação dos campos de dunas – que em alguns trechos possuem até 35 quilômetros – e a inclemência do clima e dos ventos afastava da costa os europeus. No Sul da América, apenas cinco áreas eram consideradas portos naturais “seguros”: os deltas dos Rios Tramandaí, Mampituba, Araranguá, do Prata e a Barra do Rio Grande.

Durante o ano de 1626, jesuítas espanhóis provenientes de Assunção atravessaram o Rio Uruguai e, junto dos Guaranis, fundaram o I Ciclo das Missões. Nesta época, os padres trouxeram todo tipo de animais de criação – entre eles os gados vacum, equino e asinino – e se estabeleceram em reduções, que são pequenos pueblos que funcionavam como cidades-fazendas. A prosperidade do Projeto atraiu grupos de bandeirantes paulistas, que atacaram a região em busca de riquezas e escravos. Os conflitos terminaram em 1641, e as Missões foram abandonadas. Na fuga do território rio-grandense, os padres deixaram para trás as criações, que não tendo predadores naturais, se reproduziram descontroladamente e se dispersaram pelas planícies, planaltos e pradarias repletas de gramíneas do Rio Grande do Sul.

(continua na próxima semana)