Já faz vários anos que as estiagens vêm assolando o Rio Grande nos tempos de verão: “o gado magro segue lambendo o chão queimado, e o vento norte dedilha acordes nos aramados…”

O gado perde peso, as águas se metem pro oco do chão, e as lavouras de soja e de milho padecem, retorcendo as folhas e ameaçando prejuízos para a colheita. E diminuem as rendas dos lavoureiros, que já são maioria em Caçapava e na região da Campanha gaúcha.

Há poucos dias, o Correio do Povo publicou uma reportagem, contando da diminuição da área de melancia cultivada no Estado de uns anos pra cá. Deixamos de ser o maior produtor nacional, título que agora pertence ao Rio Grande do Norte, onde plantam com irrigação. É pela incerteza quanto a ocorrência das chuvas na hora certa e, também, por causa da expansão da soja, que está cada vez mais invadindo áreas de outras culturas por ser mais rentável.

Eu sempre temo pelo fato da nossa agricultura sulina se transformar em monocultura, perigando uma quebradeira em caso de alguma catástrofe climática não anunciada ou de alguma interrupção no mercado internacional, caso em que os chineses diminuam suas importações. Inclusive agora num futuro próximo, quando eles estarão reduzindo a sua população e tendo menos gente para alimentar.

Pois eu acredito, e faz muitos anos que digo isso, que a solução para as nossas culturas de verão é sim a irrigação. Só que isso vai demorar ainda muito tempo, pela necessidade de alterar a infraestrutura agrícola com a construção de barragens em muitos lugares para armazenar a água nos tempos chuvosos. Serão aumentados os custos de produção, mas também melhorará a produtividade e diminuirá as perdas sazonais.

Já faz tempo que os nordestinos produzem frutas no semiárido, empregando a técnica da irrigação, inclusive melhorando a tecnologia e aperfeiçoando os seus métodos no setor.

A cada ano se repete a saga: os municípios decretam estado de calamidade, fornecem água para moradores desprevenidos e mais isolados fora da cidade, arrumam verbas estaduais para construir bebedouros e perfurar poços artesianos, e a novela segue, anos após anos, sem ter fim nem solução definitiva.

Noutro dia de janeiro, vi o açudezinho lá de casa, que eu tomava banho nas férias de verão (o bosta de pato), quase sem água, minguadinho, pedindo socorro para São Pedro. Coisa braba a seca a judiar da gente e dos bichos!

O sol vermelho vai descambando além do horizonte.

Tempo de seca, vai faltar água nas fontes…