A tragédia da pomba rola

De um lado, um palco suntuoso para os festejos de Momo, onde inúmeras pessoas se esbaldariam na alegria, celebrando a vida. Na outra banda, uma tentativa de suicídio de alguém que, embora irracional, se dispôs a abandonar a vida em ato violento e radical diante da iminência do evento pagão

Aconteceu na semana do início do carnaval. Do outro lado da praça, sobre o asfalto da Rua 15 colocado no governo do Coronel, em janeiro de 2009, abaixo de gritos de protesto pela mídia e da Tribuna da Câmara, quando alguns trabalhadores iniciavam a montar a estrutura do Lonão. O tempo estava aberto, um sol de verão iluminava o céu, soprava um fraco vento no alto dos serros e um prognóstico de festa boa para o povo.

De repente, pelas 10 horas da manhã, um corpo voador estourou de encontro à vidraça do primeiro andar da Câmara, assustando o vereador que ocupava a cadeira do chefe de gabinete, a pouco mais de meio metro da janela.

Um corpinho emplumado estatelou-se no chão da entrada do prédio: recolhido, protegido numa toalha de papel, colocado água na cabeça, e a constatação que se ferira no peito e que o papo estava aberto, rasgado pelo impacto. Levada à clínica veterinária mais próxima, recebemos a explicação que não havia especialista para tratar de pássaros etc, etc e tal e que nada poderia ser feito em benefício da avoante ferida.

Soltamos o bichinho junto a uma árvore da praça e ela empreendeu um voo a um metro e pouco do chão, do tipo de um planador, em direção a outros arbustos, com o peito aberto e o papo furado. Comentei a ocorrência com algumas pessoas e me pus a matutar a respeito da pequena tragédia da inocente pomba rola.

De um lado, um palco suntuoso para os festejos de Momo, onde inúmeras pessoas se esbaldariam na alegria, celebrando a vida. Na outra banda, uma tentativa de suicídio de alguém que, embora irracional, se dispôs a abandonar a vida em ato violento e radical diante da iminência do evento pagão.

Talvez um protesto, um grito de desespero ao mundo sem porteiras e carente de aramados ante o desperdício de dinheiro público e o vandalismo social de um tempo em que as pessoas já valem pouco mais que os bichos. Especialmente, menos que as pombas que são mensageiras da paz e ornam a figura enigmática do Espírito Santo nos registros fotográficos das escrituras católicas.

Sim, estamos numa era cosmopolita e do politicamente correto em que os apelos pela preservação da natureza, dos animais e o socorro ao desperdício se sobrepõe ao tradicional, ao costumeiro arraigado e aos conservadores nos costumes. Estamos num tempo de reciclagens e reconstruções sociais.

Ao cabo de tudo, restou a mim este lamento triste e conformado pela pomba rola que talvez nunca mais cante ou mesmo arrulhe na histórica Praça da Igreja Matriz de Caçapava do Sul.