Pois vou lhes contar o que sonhei uma noite dessas em que dormi com mais vinho na cabeça do que devia: andava pelas ruas de Paris e fui despertado para as tradições culturais daquela gente cheia de história e berço de muitos escritores famosos na área do muito pensar. Conversando com as pessoas nas ruas, nos botequins e nos cafés parisienses, ali pela Av. Champs Élysées, em dia de muita chuva, de capa transparente e botas de borracha amarelas, desviando das poças nas calçadas, me caiu a ficha: a vida pode ser uma poça d’água.

Não quero dizer um poço, daqueles abertos a picareta, na pedra, para encontrar o veio d’água descoberta com uma forquilha de pessegueiro que entorta para baixo, nas mãos de algum prático calejado; também não é nenhum lagoão desses de arroio grande, nos bons tempos de verão, para banho e pescaria; tampouco uma represa de açude de largos alagues a campo fora, onde tarrãs e garças brancas, com asas de anjo, retiram seus alimentos na base da pescaria, com o caniço do bico; e nem aquelas lagoas grandes e rasas que existem espalhadas pelos campos, para matar a sede da gadaria no tempo de seca e se envidraçar de gelo nas noites frias do inverno rusguento de nossas paragens sulinas.

Descobri, sim, que a vida de cada um de nós, e até dos bichos e das plantas, dos campos e das matarias, dos insetos, é como se fosse uma pocinha de água clara que fica formada na calçada depois da chuva. Assim como um pedaço de espelho inocente que alguém deixou ficar à passagem de tantos e diversos caminhantes. Um espelho que reflete o rosto de quem interrompe a caminhada para olhar.

Se estamos envelhecendo, o espelho d’água é verdadeiro, só para sacanear a gente, mostrando cabelos brancos e o rosto cheio de marcas do tempo; se ainda estamos jovens, ele serve para confirmar aquilo que já sabemos, que ninguém será mais belo do que nós. Mas as imagens que guardamos, as boas e as nem tão boas, desaparecem quando a água seca na pocinha do tempo, e precisaremos de outra chuvarada para nos darmos conta de que a vida pode ser renovada com o andar das estações.

Alguns espelhos desses evaporam com o calor do sol; outros infiltram para irrigar a vida, na simbiose da natureza transformativa e criadora. Muitas plantas podem brotar dessa umidade armazenada, e muitos passarinhos delas podem beber, mas outros seres mendigam uma gota a mais para sobreviver em tempo de seca, fora do oásis do deserto.

Pode ser um devaneio… Seja qual for a crença de cada leitor, não discordo, mas lembro de um trecho de um poema do grande Castro Alves, o poeta dos escravos, espírita, que vai pelo mesmo caminho, e diz assim:

 

Há mistérios peregrinos

nos mistérios dos destinos

que nos mandam renascer.

Da luz do criador viemos,

múltiplas vidas vivemos,

para à mesma luz volver

 

Ou não? Cada qual que analise as suas vivências, se achar que ainda vale a pena. Se não, deixe pra lá, até que um novo dia de sol evapore as suas poças d’água, ou alguém distraído pise nelas, estilhaçando os seus espelhos.