Alergias

Pensando neste assunto das alergias, me dei conta de que existem outros tipos delas que atrapalham a vida da gente, chateando a nossa paciência. Por exemplo: os políticos mentirosos ou enganadores

Quando eu era pequeno e vim estudar na cidade, morando em pensão, com nove anos, sofria de bronquite asmática. Qualquer mudança brusca do clima me trazia o resfriado, afrouxando a coriza, o chiado no peito e alguns dias com dificuldade para respirar. Isso acarretava uma preocupação extra para minha mãe, que saturava a dona da pensão com recomendações de como cuidar do seu miúdo para combater aquele mal do inverno úmido de nossa cidade.

Com o passar do tempo, ao longo de quatro anos de banhos frios em Resende-RJ, na Aman, melhorei muito e descobri que era somente uma rinite alérgica que me acompanhava. Em 1982, frequentei a Clínica Brum Negreiros, no RJ, especializada em alergias de toda espécie. Descobri, então, que eu era alérgico a poeiras domésticas, a camarão e a mudanças bruscas de temperatura. Fumaça de cigarro também me incomodava. Era rotineiro utilizar aquelas bombinhas para asma, para poder correr no inverno, nos tempos de quartel aqui no Sul, em Santa Maria.

Hoje em dia, aprendi a conviver com essa chatice e, ao surgimento dos primeiros indícios de que vou ficar alérgico, já meto uns dois decongex plus na goela, passo uma meia tarde dormindo e me paro novinho em folha.

Pensando neste assunto das alergias, me dei conta de que existem outros tipos delas que atrapalham a vida da gente, chateando a nossa paciência. Por exemplo: os políticos mentirosos ou enganadores, que vendem ilusões em tempo de campanha e, depois, somem na poeira da estrada; certos conversadores fiado, vendedores de sonhos que povoam o cotidiano dos incautos, empulhando as pessoas com facilidades de todo naipe e coloração (vendedores de milagres terrenos); os pedantes, ditos “desmancha bolinho”, que quando se achegam a uma conversa só eles falam e nem escutam a opinião dos outros interlocutores, os “sabe tudo”; os falsos ricos, mentirosos e ostentadores de status que não se sustentam; os absolutamente certos, que nunca cometeram nenhum deslize na vida e vivem julgando e condenando terceiros desavisados; os fofoqueiros, que inventam, aumentam e espalham falsas notícias só por comichão na língua faladeira; os torcedores fanáticos (gremistas ou colorados), que nunca admitem que seus times estão em baixa, etc. e tal.

Então, nesta altura do campeonato, já convivo bem com as minhas rinites alérgicas, mas ainda não consigo aguentar certos outros tipos, que me irritam a paciência e me fazem pensar na necessidade de ser resiliente para não perder certos amigos diletos.

Como dizem constantemente por aí, para serem construídas amizades duradouras, é preciso respeitar as opiniões dos outros e passar por cima até de pequenas desavenças, em prol do bem maior de não ter de morrer numa redoma, isolado no mundo. Saber engolir sapos.

Talvez seja por isso que dizem que paciência e caldo de galinha não faz mal para ninguém, agregado ao fato de que nenhuma pessoa é igual a outra e de que é justo esse fator que permite que a diversidade se complemente na relatividade das relações mundanas. Afinal, cada macaco no seu galho e cada qual com o seu cada um, numa boa.