Por Tisa de Oliveira

Entre máquinas, linhas e agulhas, lá se vão mais de 60 anos que o caçapavano Israel Núbias de Oliveira dedica-se à alfaiataria. Com a experiência e o olhar peculiar e treinado para compreender as proporções do corpo dos clientes, ele nem pensa em parar de trabalhar.

O alfaiate iniciou o aprendizado em 1958 e, enquanto não aprendeu tudo que acreditava ser necessário, não se arriscou no mercado de trabalho. Seu primeiro mestre da costura foi um profissional de Bagé, homem muito atualizado e atento às novidades. Os figurinos das novelas, as viagens e as revistas serviam de inspiração. Um dos ensinamentos que marcou o caçapavano foi a seguinte orientação que recebeu: “nunca teime com cliente, pois ele sempre tem razão. Apenas faça uma sugestão, porque, se você teimar, perderá o cliente”.

Em 1979, Israel montou seu ateliê e, até 1990, teve funcionários, mas foi no ano de 1985 que a alfaiataria viveu o seu auge. Bancários, diretores de escolas e funcionários públicos trabalhavam de terno. Estes clientes preferiam roupas que esbanjavam elegância, com um corte refinado e peças bem alinhadas.

No espaço, os profissionais tiravam medidas, cortavam e costuravam os moldes. As peças mais encomendadas eram os ternos, conjuntos de calça e paletó. Além disso, também se faziam sobretudos e blazers. Apesar de confeccionar todas estas peças, a preferida do alfaiate é a calça social.

A alfaiataria tinha clientes assíduos, como o vereador Nadir Rocha, de Gravataí. Israel viajava até a Grande Porto Alegre para tirar as medidas, chegava na Capital para comprar os tecidos e, dias depois, retornava com os ternos prontos. O político costumava mandar fazer sempre três conjuntos de uma única vez devido a logística.

O alfaiate encerrou as atividades na criação de roupas sob medida, corte e costura em 2010. Hoje, só trabalha com restauração e confecciona calças sociais somente para os clientes antigos e alguns pastores. É requisitado por algumas lojas de confecção masculina da cidade, faz reformas e ajustes em jeans, moletom e social.

Israel, que nunca vestiu uma calça jeans, ensinou muitos profissionais de Caçapava e também da região, como o caçapavano Paulo Rui Ferreira, proprietário da loja Dom Rui, de São Gabriel.

Aos 76 anos, conta que o sonho é trabalhar até os 85, mas gostaria muito de ter alguém que o auxiliasse, pois assim sua tarefa seria apenas instruir.

“A idade chega e, com ela, os problemas de saúde. Tenho tendinite e, a cada 30 dias, faço medicação. Fico triste, porque não tenho alguém que dê seguimento ao trabalho”, lamenta.

Ele revela, ainda, que gostaria de oferecer, em parceria com a Prefeitura ou com a Associação Comercial e Industrial de Caçapava do Sul (ACIC), um curso profissionalizante.

“Costurar exige dedicação, são muitos detalhes para aprender, e a última etapa é o estágio, no qual o aluno coloca em prática todo o conhecimento adquirido. Mas a moda masculina não tem invenções, ela vai e volta. Ainda quero ensinar, passar adiante tudo o que aprendi, o que sei. A alfaiataria é uma profissão que sempre tem demanda, e um bom profissional nunca ficará sem trabalho”.

Foto: Tisa de Oliveira