“Nos cerros de Caçapava/ foi que viu a luz do dia/ à hora d’Ave Maria/ de uma tarde meio suja:/ Logo cantou a coruja/Em honra de quem nascia”. Vira e mexe, em algum encontro por Caçapava do Sul, alguém declama trechos do livro Antônio Chimango, escrito em 1915 por “Amaro Juvenal” – pseudônimo usado por Ramiro Barcellos (1851-1916). O texto é uma das principais referências da chamada literatura gauchesca.

A obra foi “dissecada” esta semana pelo escritor, pesquisador e tradutor José Francisco Botelho, na Casa de Cultura Juarez Teixeira. O autor falou sobre a obra e seu contexto durante o evento Revolução de 23 – Memórias, Narrativas e Imaginário, que contou com a participação de cerca de 50 pessoas, e teve ainda como convidados o escritor Euclides Torres, o pesquisador João Batista Henriques e o historiador João Timotheo E. Machado, numa mesa coordenada pelo jornalista João Alberto D. Santos.

Botelho destacou que, embora a obra – em versos – contenha uma sátira política e um contexto histórico muito definido, ela extrapolou o alcance imaginado inicialmente por seu autor. “Foi um enorme sucesso, e as pessoas decoravam os poemas, porque eles falavam do mundo que elas conheciam com grande poder artístico. É uma obra que pode ser lida de muitas maneiras, muito além do que a provocou”.

O texto constitui-se de 213 sextilhas, num total de 1.278 versos, que se distribuem em cinco rondas, ou cantos, que se dividem em duas instâncias narrativas: na primeira, um narrador em terceira pessoa conta episódios que envolvem tropeiros, em especial o Tio Lautério, velho gaúcho; na segunda, Lautério assume a narração, para contar a vida de Antônio Chimango (na verdade, Borges de Medeiros), sujeito fraco, mesquinho, covarde – ou seja, um anti-herói, um antigaúcho.

Sucesso imediato de público, Antônio Chimango teve 36 edições oficiais e outras tantas clandestinas, e tem relação mais que direta com o contexto da Revolução de 1923. A começar pelo Chimango da sátira em versos, o caçapavano Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961), centro e referência maior da disputa que levou ao conflito armado.

O encontro foi uma realização da CCJT e Projeto Doble Chapa, com apoio institucional da Unipampa – Campus Caçapava e Campus Bagé, do Geoparque Caçapava Aspirante Unesco e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo/Prefeitura de Caçapava do Sul. Foi o primeiro de uma série de eventos que ocorrerão este ano, em referência ao centenário da Revolução de 23.

Fotos: Divulgação