As árvores costumam estar presentes nas lembranças importantes de minha vida. Lembro uma e outra com emoção. As laranjeiras de umbigo do pátio lá de casa, plantadas pelo meu pai a cada filho que nascia. O pessegueiro e a ameixeira, de frutos tão gostosos que tentavam a gurizada da vizinhança a pular o muro, em surdina, para apanhá-los. O cinamomo da frente da casa no Passo S. Lourenço, onde moramos dois anos. À tardinha, papai e tia Eufrázia tomavam chimarrão sob a copada sombra.

Depois, as figueiras centenárias, ou quase, da Charqueada do Dindo, nossa colônia de férias. Eram nossa sombra, quarto de brinquedos, onde colocávamos nossas bonecas nas casinhas improvisadas, e que servia de esconderijo das bolas de gude do primo Ad, lá nos galhos mais altos, onde nenhum de nós conseguia alcançar. Na pracinha da cidade, durante o ano, ele era o campeão invicto da gurizada.

As paineiras tiveram papel importante nas minhas emoções da adolescência.

Quando nasceu meu primeiro filho, a primeira visão que tive à janela do Hospital foi um coqueiro bem alto, com as folhagens dançando ao ritmo do vento. Mais tarde, comparei a personalidade do primogênito a essa árvore, pois ele seguia seus ideais sem perder-se pelos atalhos, seguindo sempre em frente.

O segundo nasceu em fins de novembro, e eu me encantei ao olhar os jacarandás em flor à frente do Hospital. Esse filho mostrou-se expansivo, curtindo amizades, e sempre alegre e bem disposto. Depois de algumas encruzilhadas, ele achou o caminho certo e, como o primeiro, é o meu orgulho. São minhas joias.

Nos caminhos que percorro, as árvores me prendem a atenção. Vejo ninhos, flores ou frutos, em algumas adivinho o trabalho das abelhas, beija-flores sugando o néctar, borboletas esvoaçando. E nesse mágico espetáculo da natureza, oferecendo sombra aos caminheiros.

Como não apreciá-las?

Por isso me dói tanto quando as derrubam. Nem posso assistir na TV ao extermínio das florestas, dos meios de vida da população indígena de nosso país, de sua cultura. Ex-donos da terra, agora desalojados. E o país e o mundo mais poluído.

Dia 19 foi o Dia do Índio. Com a pandemia, nem as escolas puderam festejá-lo. Mas festejar o quê?

Invejo – no bom sentido – as cidades com árvores nos parques, nas calçadas, nas avenidas! Santa Cruz com seu túnel verde, Cachoeira do Sul e suas praças, Porto Alegre e a rua mais bonita do mundo, onde os galhos de uma calçada à outra se enlaçam.

E dizer que aqui, entre nós, foi abatida a árvore cuja sombra atravessava a rua, e tinha dezenas de ninhos. Em poucos minutos veio abaixo, e os passarinhos voltando de sua procura de comida para os filhotes, só encontraram ruínas. Lembro que o céu escureceu com sua sombra, quando postados nos fios de luz, não sabiam mais onde abrigar-se.

Não foi a única tragédia. Presenciei mais algumas, e até hoje sinto a falta que elas fazem.

É a vida, os gostos divergem. Uns amam, outros desprezam. Uns protegem a vida própria e a sua, outros se aglomeram sem máscaras.

De quem será a última palavra?