Dia de Finados, quantos já passaram em minha vida. Os ciprestes tristes, as flores de nome Primavera, que eu acho sempre lúgubres, mas minha saudosa mana gostava. Sombrias por causa das cores, branca e roxa, e só as encontrar no cemitério. Mas agora entendo. Elas exprimem a saudade nossa e a paz que os entes queridos que tanto choramos estão gozando em outra vida, mais além.

Pela primeira vez em tantos anos, os lírios – plantados pela tia Neusa, querida – não abriram a tempo. Faltou também o vento, cujo lamento sempre nos tocava, mas o calor abafado e quente, prenunciando chuva, lá estava, como sempre.

As pessoas que eu encontrava em outros anos, voltando nessa data à terra natal para reverenciar os seus falecidos, não as vi desta vez. Muitas também já partiram. É o preço pago pela minha longa vida, sou uma sobrevivente que ainda ama a vida e tudo que ela tem de bom e amado. Mas, até quando?

Ao passar pelas capelas e túmulos, revejo com saudade aqueles vultos que fizeram parte de nossa história, da família, de grupos de amigos, da cidade. Numa delas, presenciei anos atrás uma cena tocante. Uma filha pedindo ao pai seu perdão por não tê-lo ouvido. O irmão a consolava: “Ele te perdoou, não chores, teu motivo foi por amor àquele que não te mereceu.” Não os vejo mais. Espero que lá no além, eles se encontrem, perdoem-se e estejam na paz dos bem-aventurados.

As flores falaram por nós, do nosso amor, da saudade que não nos abandona e do nosso desejo de que estejam mais felizes e realizados do que aqui na Terra, que tanto nos decepciona. A começar pelo vandalismo de grupos que roubam, depredam e profanam este lugar sagrado, feito para lembrar e rezar pelas almas de nossos entes queridos.

Apesar dos estragos, da falta de floreiras e argolas furtadas que dificultaram a ornamentação das jazidas, o cemitério cobriu-se de uma aura de paz e amor, colorido que ficou com os diversos matizes das flores, nossas lindas intérpretes.

Em especial nesse dia, a gente não se sente tão só. As lembranças são mais palpáveis, parece até que conversamos com nossos amados falecidos, e eles por certo nos abençoam.

Que eles descansem em paz e gozem das bem-aventuranças do céu. Amém.