Sempre nesta época, início de primavera, eu me lembro de um romance muito divertido sobre a vida de irmãs solteironas que costumavam fazer a faxina da primavera de ponta a ponta da casa, começando pelos armários de roupas. E também retirando dos baús para lavar, pôr a secar, passar e guardar de novo o  enxoval de cada uma, feito com capricho quando ainda sonhavam com o príncipe encantado que nunca chegou.

Hoje, estou recordando a vida de tantas primas pobres que foram morar com parentes ou padrinhos e passaram a desempenhar a função de damas de companhia, governantas, cuidadoras de crianças ou de idosos da casa. Vinham de famílias numerosas, de escassos recursos, e foram “sobrando” na família depois que os demais irmãos e irmãs se casaram e partiram. Conheci diversas primas pobres na minha infância. Geralmente, eram habilidosas na costura, bordados, trabalhos de agulha ou de cozinha.

As donas de casa tinham mais tempo para sua vida social, visitas a fazer ou receber, festas e cuidados de beleza. Bastava-lhes ensinar o sistema da casa, as manias dos personagens da família, o jeito de tratar as crianças e entretê-las, fazer quitutes e providenciar as listas de compras.

Dadá foi um exemplo. Não por falta de insistência da madrinha, ela continuou recusando-se a enfeitar-se ou acompanhá-la nas festas e passeios. Preferiu os trabalhos caseiros, ficar no seu canto.

Tenho saudades de seus quitutes e atenções. Ninguém melhor do que ela para aquelas merengadas firmes que cobriam os bolos, e os merenguinhos no ponto. Tentei aprender, mas os meus desmoronam ou queimam.

E na máquina de costura fazia consertos de roupas, bordava e aprontava enxovais para as noivas dos arredores. Quantas noivas ela aprontou! Uma de minhas noras ainda guarda um jogo de lençóis que ela bordou para sua avó Moema. Tive o prazer de usá-los em uma das minhas visitas.

Muitas vezes fiquei em seu colo enquanto ela pedalava a máquina, e lágrimas sentidas corriam de seus olhos. Soube que teve um único amor que não deu certo e que jamais esqueceu.

Mas havia também as “primas pobres” que não se conformavam em serem apenas figurantes. Almejavam o protagonismo, mas esse nunca lhes coube. E na sua aparência humilde, tramavam vinganças àqueles a quem serviam. Lola, que passava o dia cuidando da prole de Dona Inácia, não tinha a vida nada fácil. Sua prima e ama gabava-se de ser a mãe perfeita, mas era só dar à luz e eles passavam às mãos da prima babá. Quantas vezes essa prima nos tratou mal, acusou-nos das artes de seus meninos travessos e nos fez levar castigo! Às vezes, ela nos oferecia uma boneca feita por ela, com vestido e touca de crochê, um amor de brinquedo. E nos convencia a aceitar o presente. Quando nos via com o bebê, nos arrancava dos braços com um sorriso de bruxa malvada.

Agora eu as compreendo e tenho muita pena de todas elas. Coitadas! Ah, se tivessem vivido nestes dias de hoje! Solteirona é um termo em desuso. Agora são independentes, modernas, donas de seu nariz e vivendo a vida que escolheram. Que bom, todos temos esse direito.

As famílias já não têm com quem deixar os filhos e os cuidados da casa enquanto saem para trabalhar fora. Mas para tudo deve haver um jeito. É só procurar e fazer do melhor modo possível.

Deus nos criou para a felicidade. E o caminho a gente aprende com a própria vida. Ela nos ensina a simplicidade, a fraternidade, o amor a Deus e ao nosso próximo. Sejamos bons samaritanos, fazendo o bem sem olhar a quem.