Nas próximas duas colunas, traremos a questão Farroupilha e suas relações com a sociedade escravista. Vasculhando documentações dos rebeldes republicanos e a produzida pelo Poder Legislativo local de 1839 e 1840, analisando os textos, surgem interessantes pistas desta dinâmica social.

O município de Caçapava possui uma grande comunidade negra. Esta é uma questão interessante. Não existe registro de grandes charqueadas na nossa região – que demandava uma grande quantidade de mão de obra escrava –, e a atividade pecuária não necessitava de grande quantidade de escravos. Esta comunidade pode ter relação com quilombos ou com a existência de um grande mercado de compra e venda de cativos? Será que uma das explicações para a existência desta grande comunidade negra é que parte da Guerra Civil de 1835 pode ter sido financiada com o lucro da venda de escravos? Ou por Caçapava ter sido a Capital Farroupilha, ela acabou sendo o destino dos libertos e forros, que se estabeleceram aqui depois da pacificação do Estado em 1845?

A pesquisa, a transcrição dos documentos e sua análise, lentamente, vão desvendando o véu do tempo.

A história das relações existentes entre os Farroupilhas e a sociedade escravista sempre foi nebulosa e suspeita.

Os historiadores sabem, atualmente, que, ao lado dos Farrapos, houve grande participação de escravos e negros libertos. Tal participação ocorreu pela habilidade de muitos deles em funções importantes.

Apesar dos revoltosos compartilharem um mesmo ideal Republicano, os líderes divergiam em vários pontos. Um deles era a escravidão. As lideranças farroupilhas divergiam frente à questão servil. A “maioria” – formada por Bento Gonçalves, Domingos José de Almeida, Mariano de Mattos, Antônio Souza Neto e outros – assumiu uma postura claramente abolicionista. A “minoria” – Vicente da Fontoura, David Canabarro e outras lideranças – aceitou a libertação dos escravos que se engajassem na luta contra o Império, opondo-se a qualquer tentativa de libertação geral dos cativos. A materialização destes sentimentos foi a não inclusão, no projeto de Constituição da República Rio-Grandense, da liberdade para os escravos, culminando na malfadada Batalha de Porongos, em 14 de novembro de 1844, quando os Lanceiros Negros foram massacrados por forças Imperiais.

Na próxima semana, transcreveremos um Decreto Farroupilha, de 16 de maio de 1839, que foi assinado em Caçapava pelo General Bento Gonçalves da Silva, que trata das punições aos soldados negros que tenham debandado para o lado Imperial.

O documento se encontra salvaguardado no Arquivo Histórico Municipal Nicolau Silveira Abrão, na encadernação do Jornal O Povo, na página 285, que foi publicado em 18 de maio de 1939, na coluna interior.