Nós todos, e tudo o que percebemos a nossa volta – escritos, construções, tecnologia, moda, comportamento, música, cultura e demais produções humanas – nos mostra o final do processo histórico. É isso que conseguimos enxergar.

Este doloroso processo é esquecido com o tempo, o que nos faz ter a sensação do eterno presente. Chamamos isso, na academia, de “Efeito Flintstone”, em referência ao desenho produzido por William Hanna e Joseph Barbera, sucesso nas décadas de 1970 e 1980. Esta divertida animação brincava com o anacronismo, que é o erro de cronologia no qual se atribui a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época, ou em representar, nas obras de arte, costumes e objetos de uma época a que não pertencem.

O futebol, como qualquer outro fenômeno social, tem raízes muito mais antigas, que se perdem na História da Civilização.

O que nos atrai no futebol? A resposta é simples: o sentimento de nação, a agilidade e a inteligência dos jogadores, os gritos enfurecidos da turba enlouquecida. Mas as raízes de tudo isso são muito mais antigas do que parecem.

A admiração pela agilidade e pela inteligência dos craques remete ao tempo em que vivíamos como caçadores. A caça, para os seres humanos, sempre foi uma atividade em grupo, como o futebol. Observar a presa, estudá-la, cercá-la, encurralá-la e abatê-la era uma tarefa que exigia paciência. Os caçadores necessitavam ser rápidos, ágeis, e eram cultuados e reverenciados pelos demais membros da comunidade.

Outras memórias, que são anteriores à civilização humana, escondidas dentro da Cultura do Futebol são as das guerras e dos seus combates. Se observarmos, os times de futebol se comportam como exércitos, cujo objetivo é entrar no território inimigo e atacar um alvo determinado – o gol –, que poderia ser o centro de comando, um quartel ou um paiol.

Outra questão interessante do futebol é a valorização dos jogadores locais. A Casa de Cultura Juarez Teixeira (CCJT), desde a Semana do Município, está apresentando a Exposição Caçapava de Chuteiras, que homenageia a Luís Carlos Melo Lopes – o Caçapava –, um dos maiores ídolos do Internacional, e que foi campeão gaúcho em 1974, 1975, 1976 e 1978, e fez parte da Seleção Brasileira em 1976 e 1977.

Junto a este acervo, a Exposição também traz a memória, fotos, uniformes e troféus de dezenas de outros craques locais. São estes itens da Exposição Caçapava de Chuteiras que são os mais visitados. Os caçapavanos procuram suas referências locais, da mesma forma como acontecia nas arenas da antiguidade clássica, quando os gladiadores representantes das províncias romanas se engalfinhavam até a morte. As simulações de combates, com o tempo, foram normatizadas, humanizadas, e formam a base daquilo que chamamos hoje de esporte. E como os espetáculos sangrentos do Coliseu ou as corridas de bigas por equipe do Circo Máximo Romano, o futebol e outros esportes coletivos, como o vôlei e o basquete, sempre atraíram multidões enlouquecidas.

Os jogadores locais ainda representam a comunidade, a sua força e a sua união, criando um sentimento de nação, de pertencimento. E os visitantes da CCJT sabem das trajetórias e das histórias destes ídolos do futebol da nossa cidade, as dificuldades que enfrentaram na vida, onde jogaram, com quem jogaram, o motivo que levou ao fim das suas carreiras, e replicam suas histórias, criando assim um caráter quase heroico e mítico destes personagens.

Todos nós somos reflexo dos nossos discursos, e estes são a base da sociedade em que vivemos. Você pode até não gostar de futebol, mas o turbilhão de sentimentos e de memórias movimentado por ele, com certeza, impacta a sua vida e a nossa sociedade. Somos todos feitos de muitas partes esquecidas, e o resgate das memórias é fundamental como base da compreensão de quem realmente somos.