Caçapava é uma cidade com acessibilidade?

Que o município tem enorme potencial turístico, todos já sabemos. Inclusive, no ano passado, nosso território foi reconhecido pela Unesco como Geoparque Mundial, o que aumenta a atenção de potenciais visitantes. Mas será que, se algum deles, assim como os habitantes locais, for uma pessoa com deficiência ou com dificuldade de mobilidade, conseguirá transitar facilmente por nossa cidade?

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Crédito: Luiz Felipe de Oliveira/Gazeta de Caçapava

Que Caçapava é um município com enorme potencial turístico, todos já sabemos. Inclusive, no ano passado, nosso território foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Geoparque Mundial, o que aumenta a atenção de potenciais visitantes. Mas será que, se algum deles, assim como os habitantes locais, for uma pessoa com deficiência ou com dificuldade de mobilidade, conseguirá transitar facilmente por nossa cidade? Em busca de uma resposta, a Gazeta foi às ruas e ouviu a opinião dos caçapavanos sobre o tema.

O aposentado João Nicolau Bitencourt, de 73 anos, é pai de Ana Carolina Trindade Bitencourt, de 29, que necessita de uma cadeira de rodas para se locomover. De acordo com ele, alguns desafios que a filha enfrenta no dia a dia têm relação com o estado de conservação de calçadas, que têm muitos buracos e a obrigam a transitar pela rua, e as rampas de acesso às calçadas.

– A maioria das rampas é construída a pique, muito inclinada. Se ela for descer ou subir, a cadeira vira. Só a bateria da cadeira pesa 30 quilos, ao todo deve dar uns 60 quilos. Não tem como eu pisar na cadeira para subir a calçada com ela ou ajudar a descer ou subir uma rampa – explicou.

Bitencourt também relatou dificuldades para ter solicitações atendidas pelo Departamento Municipal de Trânsito. Ele contou que, em meados de dezembro de 2023, precisou atualizar o cartão de pessoa com deficiência de Carolina, documento emitido pelo órgão e que permite estacionar em vagas reservadas. Ao ir solicitar um novo cartão, decidiu aproveitar para conversar com o diretor do Departamento, Adão Naldo Pereira, sobre a possibilidade de ser pintado o meio-fio e uma rampa e a instalada uma placa indicativa de vaga para pessoa com deficiência em frente à casa onde mora a cuidadora de Carolina e onde ela passa todo o dia. Segundo Nicolau, há um depósito de lenha ao lado da residência, e os caminhões estacionam junto à rampa, impedindo o acesso da filha.

Apresentadas as solicitações, o diretor Naldo teria dito que, para atualizar o cartão, era necessário um laudo médico que comprovasse a deficiência de Carolina e que, enquanto o atestado não fosse entregue ao Departamento, nenhuma das ações poderia ser atendida. Conforme Bitencourt, na última vez em que havia atualizado o cartão, em 2015, recebera o documento na mesma hora, e somente depois levara a documentação necessária.

– Como ir a Santa Maria, no médico que trata a Carolina, e pagar R$ 500,00 só para ele emitir um laudo? Todo mundo conhece a minha filha, sempre foi cadeirante – pontuou.

Nicolau também disse que retornou ao Departamento de Trânsito em 04 de janeiro, mas como Adão Naldo estava em férias, conversou com um funcionário, a quem teria dito que, se as solicitações não fossem atendidas, procuraria a imprensa. Então, na segunda-feira, dia 08, uma equipe da Secretaria de Obras teria ido até a casa da cuidadora (foto ao lado), pintado o meio-fio e instalado a placa que indica vaga reservada a pessoas com deficiência.

Conversamos também com a cuidadora de Carolina, Telma Matos da Fontoura, de 54 anos, que relatou costumar passear com a jovem, precisando circular pela rua, devido às condições das calçadas.

– Infelizmente, não tem como andarmos nessa buraqueira. Preciso levar ela pelo canto da rua, com os carros desviando – explicou.

Sobre a demarcação realizada em frente à sua casa, ela contou que, mesmo com o serviço feito, ainda há carros que estacionam indevidamente no local.

Crédito: Luiz Felipe de Oliveira/Gazeta de Caçapava

Quem também reclama da falta de respeito às vagas destinadas a pessoas com deficiência é Ângela Maria Garcia do Nascimento, de 57 anos. Ela é mãe de Dienifer Garcia do Nascimento, de 31, que, assim como Carolina, precisa de uma cadeira de rodas para se locomover.

– Podemos dizer que quase tudo é difícil. Principalmente as ruas, as calçadas, as rampas e os banheiros adaptados. Na maioria dos comércios, não se pode entrar, porque há degraus nas portas. Outra coisa bem importante são as vagas no estacionamento. Não existe fiscalização. Todo mundo ocupa. Já procurei fiscais pelas ruas, mas não encontrei. Acho que, se existisse fiscalização, educaria a população em qualquer setor – comenta.

Mas não apenas pessoas com deficiência têm dificuldades para circular pelas calçadas de Caçapava. Os idosos também têm suas queixas:

– Está muito ruim. Sempre foi complicado andar pelas calçadas da cidade. Está péssimo, podia melhorar um pouco. Uma amiga minha chegou até a se acidentar por causa de um buraco – comentou uma senhora aposentada, de 71 anos, que não quis se identificar.

– Por ter um problema no joelho, eu só ando pelas calçadas que são calçadas mesmo. As outras têm buracos de todos os tamanhos, pedras. Tem que desviar, andar pela parte que tem grama. Isso tudo, para o meu joelho, é ruim. Então, eu peço ao prefeito [risos] que tenha um cuidado especial com as calçadas, porque há muitos idosos em Caçapava, e eu vejo muita gente reclamando da mesma coisa – disse Maria Juraci de Oliveira Gonçalves, aposentada, de 78 anos de idade.

O que diz a Prefeitura

Sobre o caso relatado por João Nicolau Bitencourt, a Gazeta contatou o Departamento Municipal de Trânsito, através da Assessoria de Comunicação da Prefeitura, na terça-feira, dia 15. Confira a resposta:

“A Secretaria de Obras do município, através do Departamento de Trânsito, sob a direção de Naldo Pereira, informa que atendeu à solicitação referente à pintura de demarcação de vaga para cadeirantes, bem como à instalação de placas de sinalização e rampa de acesso.

“Esse tipo de instalação ocorre sob demanda específica, dentro de cronograma estabelecido pelo setor após avaliação e, mesmo com pessoal reduzido, no dia 05 de janeiro, poucos dias após a solicitação, o cidadão já contava com o serviço concluído.

“A demarcação e a rampa de acesso visam promover a acessibilidade e segurança de todos os cidadãos, especialmente aqueles que enfrentam desafios de mobilidade e representam uma ação significativa para a inclusão e o respeito à diversidade em nossa comunidade facilitando a locomoção de pessoas com mobilidade reduzida, contribuindo para a construção de uma cidade mais igualitária.

“Além disso, a instalação de placas de sinalização específicas reforça a conscientização sobre as necessidades especiais dos cadeirantes, garantindo que as áreas demarcadas sejam respeitadas por todos. Essa sinalização desempenha um papel fundamental na promoção de uma convivência urbana mais consciente e solidária.

“O Departamento de Trânsito reitera o compromisso com a melhoria contínua da infraestrutura urbana, sempre atenta às demandas da comunidade. A colaboração entre a população e os órgãos governamentais é fundamental para a construção de uma cidade inclusiva, onde todos possam desfrutar de seus espaços de maneira plena e igualitária.

“A prefeitura de Caçapava do Sul agradece a compreensão e colaboração de todos, ressaltando que essa conquista reflete o resultado do trabalho conjunto entre a comunidade e a administração pública em prol do bem-estar coletivo. O Departamento de Trânsito, que é a referência para a solicitação desta natureza informa que está aberto a sugestões e solicitações para continuar aprimorando a qualidade de vida em nossa cidade.”

Confira alguns registros do que encontramos pela cidade:

Fotos: Luiz Felipe de Oliveira