Caçapava: uma história e uma sina

“Não tardou nadinha a ser convocado para um time juvenil do qual fui técnico por apenas uma partida. Muito forte de físico, maior do que a maioria dos outros guris de mesma idade, destacava-se pela versatilidade”

Homenagearam o Caçapava, ainda que tarde, mas muito merecidamente, no dia 18 de outubro deste ano de 2025, com uma placa na Praça Central da cidade, imortalizando-o.

 Conto-lhes do Luiz Carlos Melo que conheci, neto de lavadeira, Dona Ernestina, mãe do Tinga e do Tinguinha (o primeiro era goleiro, e o outro, centro médio), que morava numa casinha branca, nos fundos do terreno, na esquina da Benjamin com a Bento, na diagonal com o Posto Texaco.

Vivia fazendo balãozinho, com uma bolinha de meia, de pés descalços, sempre acompanhando a avó, com uma trouxa grande de roupa lavada na cabeça. Caminhavam bem devagarinho, ela porque de idade avançada e estatura maior, ele porque gastava seu tempo de criança às voltas com o seu brinquedo preferido, que perdia e achava no meio da sujeira das ruas. Foi criado por essa avó, a quem fazia companhia nas funções de mandalete.

Depois, quando já andava pelos 12 anos, foi vender jogo do bicho e aparecia na esquina do Marino Casanova, defronte ao antigo Posto Ipiranga, depois do meio-dia, quando havia movimento e nós nos reuníamos para tratar do nosso time e para jogar botão.

Não tardou nadinha a ser convocado para um time juvenil do qual fui técnico por apenas uma partida. Muito forte de físico, maior do que a maioria dos outros guris de mesma idade, destacava-se pela versatilidade: jogava em todas as posições. Naquele jogo, o escalei de zagueiro para marcar o centroavante adversário, que era o melhor jogador deles.

Foi por essa época que foi levado por um dos tios para fazer testes nas categorias de base do Colorado. Dizem que não ficou porque o tio/empresário teria exigido um salário de 100 cruzeiros, o que não foi aceito pelo time da capital.

Ao completar 18 anos, foi atuar no Santa Cruz, que já contava com o Camilo, outro caçapavano, que costumava participar dos Gre-nais de domingo de manhã, no Campinho do Ilo, que ficava perto da Fonte do Mato e cujas goleiras eram demarcadas com chinelas havaianas dos atletas participantes.

Em pouco tempo, foi consagrado como camisa 5 do Sport Club Internacional, coadjuvante de Falcão, Carpegiani, etc. naquele time encantador que marcou época no estado. Campeão brasileiro, não tardou a vestir a “amarelinha”, colocando a sua alma nas travas das chuteiras até ser contratado pelo Corinthians paulista, onde sua carreira começou a degringolar pela bebida. Ao final, virou pai-de-santo em Fortaleza, numa desesperada tentativa de driblar o fracasso. Lá, foi campeão como treinador de uma seleção do Comando Militar do Nordeste.

Por indicação do Falcão, retornou ao Inter nas funções de Embaixador junto a grande torcida do clube. Morreu em Caçapava, depois de uma flamante recepção da Torcida Sentinela Colorada, em reconhecimento a sua história de glórias, carregando pelo mundo o nome da cidade onde nasceu.

Foi uma dessas vítimas do jogo da vida. Não conseguiu superar a marcação do destino, que, do mesmo jeito que ele, costumava anular seus adversários nos tempos de força e saúde. Sucumbiu ao despreparo para uma mudança brusca de status social e riquezas desconhecidas.

O mundo glamoroso das “estrelas” não estava preparado para a sua humildade, genialidade e força muscular, a par de uma mente inocente de quem nasceu pobre e morreu pobre, na casa da mãe que o recebia saudosa depois de seu retorno às plagas gaúchas.

Morreu como viveu: pobre, famoso, decrépito e empoderado. Esperança de muitos e decepção de outros tantos, por não ter podido marcar o gol mais importante na meta da vida.

Caçapavanos que somos, gremistas e colorados, nos orgulhamos da sua trajetória. De suas conquistas e de seu legado esportivo.