Caçapavano conquista o título de mestre em capoeira

Apaixonado pela capoeira desde os 13 anos, Vagner Nunes Ramires contou parte de sua história com o jogo à Gazeta, em uma entrevista especial

Por Luiz Felipe de Oliveira

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Crédito: Luiz Felipe de Oliveira

Vagner Nunes Ramires, 41 anos, conhecido como Vavá, recebeu o cordel de mestre em capoeira durante batizado promovido pela Associação Cultural de Capoeira Herdeiros da Ginga, no domingo (15), no campus Caçapava da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Assim, ele se tornou a primeira pessoa natural de Caçapava a alcançar esse nível de graduação, considerado um dos mais elevados entre os jogadores da capoeira regional.

O primeiro contato de Vavá com a capoeira aconteceu em 14 de setembro de 1994, aos 13 anos, quando viu uma roda de capoeiristas, alunos dos mestres Ali e Duda, de São Sepé, em frente ao Instituto Estadual de Educação Dinarte Ribeiro.

– Eu olhei, gostei, e esperei os mestres voltarem a Caçapava. Então, abracei a causa com eles – contou.

A partir daí, nunca mais parou de jogar e de aprender sobre a capoeira. Segundo Vavá, muitos fatores determinaram a sua permanência no grupo, mas o principal deles é que encontrou, naquele ambiente, uma família para além de Caçapava.

– O mestre Ali é um paizão para todos nós. Foi ele quem fundou o Herdeiros da Ginga em Caçapava, é por causa dele que, a toda cidade que vou, sou conhecido e respeitado. A família é muito grande, não somos só nós daqui, basta olhar para esta multidão presente no evento, é de tudo quanto é canto, da Bahia, de Caxias, de Porto Alegre. Para mim, capoeira é família e uma filosofia de vida – afirmou.

Ao ser questionado sobre o que estava sentindo com a conquista da maestria e o que isso significava para ele, Vavá disse que a ficha ainda não tinha caído, e refletiu sobre algumas vivências que permitiram que ele chegasse aonde chegou:

– São 29 anos batalhando pela capoeira e levando o nome de Caçapava para tudo quanto é canto. Já trabalhei nas cidades de Canelones e Montevidéu, no Uruguai; em Rufino, Lincoln e Amenábar, na Argentina; e também em Florianópolis, Santa Catarina. Para mim, conquistar a maestria é espetacular. Ter o meu nome na história de Caçapava é um sentimento inigualável. Agora, a batalha continua. Vamos seguir levando o nome de Caçapava aonde quer que a gente for, sempre – respondeu.

Conforme Vavá, para se tornar mestre em capoeira, é preciso máxima dedicação.

– Mas não só para ti, também para quem está a tua volta. Um mestre em capoeira não é formado somente dentro dela, mas também na comunidade. A comunidade que vai saber se tu é um mestre de capoeira ou não. As pessoas já te chamam de mestre sem que tu tenha a graduação. É preciso trabalhar junto aos filhos, aos pais, às mães, e com todos da comunidade. É preciso batalhar muito para chegar a esse título, não é fácil. Também aprendemos muito com os alunos. A estrada é longa – concluiu.

Quem formou Vavá foi o mestre Ali, que disse ser um orgulho e uma honra poder viver esse momento.

– Para mim, é uma realização ver um aluno chegar nesse estágio. Isso é ainda mais importante do que o significado do meu próprio cordel de mestre. O Vavá é meu aluno desde criança – comentou.

Em Caçapava, o mestre Vavá já trabalhou com capoeira em diversos lugares, como a AABB, o Caps, a Apae, o projeto Escola Aberta do Januária Leal, além de escolas e creches. Também foi destaque esportivo durante três anos.

O batizado

O batizado de Vavá como mestre de capoeira ocorreu em evento organizado pela Associação Herdeiros da Ginga e contou com a presença de vários mestres e seus respectivos grupos, que vieram de diferentes cidades e Estados. Do Rio Grande do Sul, estavam presentes os mestres Jacaré, Pelézinho, Bonito, Mesquita e Sarara, de Porto Alegre; Macaco e Alfinete, de Caxias do Sul; Boi, de Santa Maria; Pernalonga, de Tramandaí; Kiko e Bonitinho, de São Gabriel; e Duda, de São Sepé. Além deles, estiveram em Caçapava os mestres Índio e Foguinho, da Bahia; e Capelão, de Santa Catarina.

Quem também acompanhou o batizado foi a coordenadora Municipal de Promoção da Igualdade Racial, Cátia Cilene Morais Dutra, e o secretário de Cultura e Turismo, Stener Camargo, que falou à Gazeta sobre o que a pasta que dirige tem feito para fomentar os movimentos culturais de matriz africana em Caçapava:

– A gente vem trabalhando em diversas ações. Reativamos o Conselho de Patrimônio Histórico em 2022, que estava inativo desde 2015, e desde então, estamos trabalhando principalmente na patrimonialização do patrimônio afro-brasileiro do município. Atualmente, tramitam no Legislativo os projetos para tornar patrimônios imateriais do município o Clube Recreativo Harmonia, o CTG Clareira da Mata e o Tambor de Sopapo. Também temos trabalhado com a política de distribuição de recursos através de ações afirmativas, tanto que os editais da Lei Paulo Gustavo preveem 20% dos recursos, aproximadamente R$ 60 mil, para projetos de proponentes que se autodeclarem negros, quilombolas ou LGBTQIA+, e 10%, aproximadamente R$ 30 mil, para quem se autodeclare indígena. Além disso, os projetos que queiram trabalhar a promoção de igualdade racial, independente de declaração, contam com uma pontuação extra de 10 pontos. Essas são algumas medidas já em andamento dentro da Secretaria, e a gente também já trabalha na criação do dia ou da semana da capoeira no município – concluiu.