– Hola, ¿cómo andas? – cumprimentou Jorge Velasques, o Picareta.

– Bien, gracias ¿y tú? – contestou Romualdo Varella, outro companheiro de curso no Instituto Militar de Estudios Superiores (IMES) del Ejército del Uruguay (ROU), Montevideo, em 1995.

– Así, peleando, por supuesto – dijo Velasques.

– ¿Cómo no? ¿Y la familia, los gurizes tuyos? – contestou Varella.

– Todo bien, tranquilo nomás – outra vez o Picareta, sorrindo, abraçando e beijando numa das faces a todos os companheiros majores que trocavam de roupa no vestiário do quartel “del IMES”.

– Me alegro, sí señor – encerrando aquela charla, pela intromissão do Mico Morales, que acabava de chegar e já enfiava “un chiste” para alegrar a rapaziada que se fardava para o início da primeira aula, às sete e vinte da manhã, e que se encerrava por volta do meio-dia e meia. De tarde, somente às quartas-feiras, quando havia tiro com arma curta de uso pessoal ou treinamento físico.

Em janeiro de 1995, me apresentei ao coronel adido militar do Exército Brasileiro, na embaixada do Brasil, naquele País, para frequentar, em regime de intercâmbio, o Curso de Altos Estudios Militares. Éramos 53 alunos, na sua maioria oficiais uruguaios, sendo um aviador, um marinheiro e os outros do Exército deles, mais três estrangeiros (um brasileiro, um americano e um argentino). Eu era o mais velho de todos, e inclusive já fora instrutor de curso similar no Rio de Janeiro durante os anos de 1993/94. Então, nada era uma grande novidade: mudavam alguns enfoques políticos ou culturais. Uma vez por semana, precisava me apresentar na embaixada para saber dos compromissos oficiais aos quais deveria comparecer e responder alguns questionamentos procedentes de Brasília.

Tive a oportunidade de conhecer muito bem a antiga Banda Oriental e seu povo, e deixei por lá um punhado de amigos e camaradas que me trataram muito bem, embora exista uma divisão cultural entre eles, com uns sendo simpatizantes da Argentina e outros que admiram mais o nosso país. Todos, no entanto, adversários da Frente Amplia.

Morei bem, no Bairro Pocitos, perto do Shoping Punta Carretas, que não é o top de linha da classe média Uruguaia, e ali pagava cerca de mil dólares ao mês, incluindo aluguel, condomínio, água e luz. O bairro mais rico é o de Carrasco. Todo o prédio possuía calefação a óleo. O porteiro permanente e de terno e “corbata” era um antigo sargento do exército (retirado) que gostava muito de me contar as suas peripécias no combate aos guerrilheiros Tupamaros na década de 1960/70, inclusive o ex-presidente Pepe Mujica, que foi membro ativo daquela organização clandestina dos tempos da Guerra Fria.

Uma vez por mês, vinha um “tipo” (“tipo” é “cara” para os castelhanos) da sanitária limpar a caixa de gordura embaixo da pia da cozinha, e isso nos custava 20 dólares. Certa vez, estragou a fechadura da porta do apartamento e, na “ferretería” onde fui, não queriam me vender a peça porque precisava da indicação de um engenheiro especializado. O meu salário naquele ano e pouco seguia uma tabela do Itamaraty que correspondia a oito mil dólares para um tenente-coronel que, aliás, me fez muito bem e me ensinou a gostar ainda mais do Uruguay. Não conseguia gastar tudo em 30 dias.

Conclui o curso com menção MB, e isso serviu para enriquecer o meu currículo militar quando eu ainda pensava em ser promovido a general de brigada, na ativa, o que conquistei na hora da aposentadoria a pedido em 2001, ao fim do comando de quatro anos em Lages, SC.