Cheias de detalhes, elas encantam a todos com sua beleza e com as surpresas que proporcionam na avenida. Em entrevista à Gazeta, o figurinista responsável pela criação e confecção das fantasias da Corte do Carnaval de Caçapava, Rafhael Munhós, conta como realiza esse trabalho

Quem não gosta do Carnaval? Há quem prefira ir acampar a ir sambar na avenida, ou ver na TV os grandiosos desfiles de São Paulo e do Rio de Janeiro, e até ficar quietinho em casa, sem saber de nada da folia, apenas descansando. Afinal de contas, são quatro dias livres para somar energias para os próximos meses, pois, como dizem, aqui no Brasil, o ano começa mesmo é depois do Carnaval.

Mas antes que você possa ir para a avenida com as escolas de samba ou sentar confortavelmente em seu sofá para assistir aos desfiles, muita coisa acontece nos bastidores. Uma delas é a confecção das fantasias que encantam adultos e crianças. Aqui em Caçapava, o responsável por isso é o figurinista lavrense Rafhael Munhós.

Seu interesse pela carreira começa ainda na infância, vendo a mãe e as tias costurarem e assistindo aos desfiles do tradicional Carnaval de Lavras do Sul. É na escola que ele põe em prática suas habilidades, confeccionando os figurinos para musicais e peças de teatro. A primeira experiência com Carnaval vem em 2017. Na época, Rafhael era estagiário na Prefeitura de sua cidade natal e foi convidado a realizar o trabalho. Isso abriu as portas para que ele ingressasse nesse mundo e, hoje, pudesse confeccionar fantasias para Carnavais de outras cidades.

Sobre os figurinos da Corte de Caçapava, ele explica que a ideia é fazer algo um pouco diferente. “A gente olha pro Carnaval e vê muito nude, sempre biquíni e calcinha decorada. Também acho isso bonito, mas acredito que podemos brincar com outras possibilidades de materiais”. Um exemplo disso é a substituição das penas da fantasia da Rainha adulta, Kethelen Henriques. “Ela é uma rainha pavão, e as penas foram construídas com bordados aplicados na roupa. De longe, todo mundo verá uma pena”.

Bordados como esse formarão as penas da cauda do figurino

Segundo Rafhael, a inspiração para essa fantasia vem da essência do pavão. “Ele é todo tímido e, quando abre a cauda, rouba a atenção. E isso é natural pra ele. O pavão é muito gracioso, e é isso que quero mostrar nesse trabalho, quero que ele se destaque. Então, todos pensarão que é uma Rainha simples, porque ela estará contida, não tem esplendor, mas quando ela chegar na avenida, abrirá a cauda [representada por uma capa presa à roupa] e mostrará todo seu poder. E a Rainha é uma menina muito empoderada, a fantasia parece que foi pensada para ela”. O que não é exatamente verdade, já que, por questão de tempo, a confecção começou antes da escolha da Corte.

Rafhael mostra como será a capa, que representa a cauda do pavão

A parte da fantasia que cobre o corpo é inspirada em um pavão. Já a coroa tem como base as utilizadas por rainhas africanas, com um peso previsto de 1,5kg. Ela é estruturada com papel paraná e arame, para ficar mais segura na cabeça de quem a use, e a pessoa não perca mobilidade. Estima-se que o conjunto pese aproximadamente 7kg.

Desenho feito por Rafhael mostra como será a fantasia

“É um desenho que tenho há dois anos, foi feito no final de 2020 e não pode ser utilizado devido à pandemia”. Para transformá-lo em realidade, Rafhael optou por zibeline, por ser bem estruturado e, ao mesmo tempo, confortável. Na parte da frente, o tecido muda de cor (de um lado, é azul; de outro, dourado) e foi coberto com pedrarias. Por dentro, a estrutura é feita com barbatanas para dar mais sustentação e segurança à Rainha, que terá nos pés uma sandália com um salto de 10cm. Mas quem olhar de longe pensará que ela está com uma bota. O “cano” foi fabricado também por Rafhael e possui um zíper, de modo que, se necessário, para ter mais conforto, poderá ser retirado facilmente.

Por dentro, o figurino é preso com barbatanas, que dão maior conforto e segurança

Além da fantasia da Rainha adulta, o figurinista confeccionou a da Rainha infantil, Nicolly de Oliveira Ferraz; a da Rainha juvenil, Kauane dos Santos Batista; e a do Rei Momo, Osvaldo de Oliveira. Ele conta que não foi intencional, mas as vestes têm as cores do Geoparque Caçapava: a fantasia da Rainha adulta é azul, e a do Rei Momo é verde com azul marinho.

Rafhael relata que, como parte de seu processo criativo, gosta de olhar para fantasias que fez em anos anteriores e analisar seus erros e seus acertos. Algo que ele aprendeu e que colocou em prática nas que fez para Caçapava foi a utilizar mais estruturas nas fantasias, de forma a dar mais conforto a quem as use. De acordo com ele, como a confecção começou antes da escolha da Corte, isso também permitiu que as vestes fossem adaptadas facilmente a qualquer pessoa que as fosse utilizar, de forma a valorizar seus corpos. “Trabalho com uma modelagem que é bem exata: pego três medidas do corpo da pessoa, busto, cintura e quadril, e consigo construir a fantasia independentemente da sua forma. Assim, a pessoa não precisa estar aqui fazendo provas para ficar certo”.

Neste ano, além das fantasias da Corte caçapavana, Rafhael também foi o responsável pela confecção dos figurinos da Corte do Carnaval de São Sepé. A da Rainha do município vizinho não tem um tema específico, seu objetivo é destacar a beleza de quem a usar. “Lá, é mais aberto a possibilidades de fantasias diferentes. Então, optei por um tecido nude coberto com pedras, para mostrar que isso é bonito, tanto quanto uma fantasia mais coberta”.

Para cuidar de tudo isso, Rafhael conta com o apoio de uma aderecista e de quatro costureiras caçapavanas. O trabalho deles já colheu seus primeiros frutos. No sábado, dia 11, o Rei Momo Osvaldo foi eleito o Rei Destaque do Rio Grande do Sul, em evento realizado no Avenida Tênis Clube, em Santa Maria. A outorga do título se deu por ele ser um dos mais longevos reis no posto e pela fantasia assinada por Rafhael.

Fotos: Isabela Oliveira