Contando causos

Ainda não assevero a nova realidade de que as pessoas se tornaram descartáveis para a grande maioria da sociedade, mas os sentimentos de perda ficaram relativizados com a evolução tecnológica

Num dia desses passados, chuvoso, pra variar, de verão, um conhecido leitor das minhas croniquetas quis saber do motivo pelo qual eu não ando contando mais causos ultimamente. Dei-lhe razão e fui “campiar”, nas dobradas das ideias, as causas desta falta de atenção. Afinal, contar um causo de vez em quando faz bem para a alma, para o ego e até para quem lê ou mesmo escuta o seu relato. Para os que apreciam, naturalmente.

Acontece que, no girar do mundo de hoje, dito cibernético e cosmopolita, “os pessoal” (como dizia uma das sogras antigas que já tive) não têm mais tempo para escutar estórias, reais ou inventadas, porque, para isso, precisariam desgrudar do celular por alguns minutos. Não é mais como já foi no tempo das revoluções que assolaram o nosso Rio Grande de bombacha, nos primórdios da sua evolução política. Nem degoladores existem mais! Todo mundo tem direito de defesa, e os direitos, de há muito, superam os deveres na escala da estratificação social da atualidade mundana do politicamente correto.

Ninguém mais acredita em assombro, em alma penada, e pouca gente ainda se atreve a pagar o mico de ficar chorando nos velórios. Acabou o luto das vestimentas pretas, o respeito de um ano pela viuvez ou perda de pai e mãe, e a precisão de não escutar músicas em período de tristeza.

Me lembro de uma ocasião (era bem assim que se iniciavam os causos antigos) em que o meu pai deixou de ir a umas carreiras, nas quais correria um cavalo que ele foi compositor, porque um tio havia falecido. O animal, desorientado, “abriu” na cancha, e ele só foi perdoado pela ausência porque todos já sabiam da fatalidade do acontecido.

Ainda não assevero a nova realidade de que as pessoas se tornaram descartáveis para a grande maioria da sociedade, mas os sentimentos de perda ficaram relativizados com a evolução tecnológica. Estamos vivendo um tempo em que os objetos são descartados e substituídos com facilidade, pois está ficando fácil e barato buscar um novo na prateleira do supermercado. As “cosas” estão substituindo as pessoas.

A posse de bens materiais que pouco valem, diante da relatividade dos valores hierarquizados, está se sobrepondo diante dos sentimentos de alma e/ou coração. E assim prosseguimos, evoluindo de acordo com os progressos da ciência, mas diminuídos enquanto relações humanas.