Foi ali, pela primeira vez, que entendi o que significa a guerra.

A guerra era minha infância destruída sob essas ruínas e fechada em uma caixinha.

(RAWICK; LOBJOIS, 2018)

Myriam Rawick já foi chamada de “nova Anne Frank”. Pelo menos duas coisas elas têm em comum: cresceram em meio aos horrores de uma guerra e deixaram esses dias registrados em um diário. O de Anne é conhecido no mundo todo e possui muitas edições; o de Myriam foi descoberto e publicado há pouco. A editora responsável aqui no Brasil é a Darkside, que, a meu ver, fugiu levemente de seu nicho editorial com O diário de Myriam.

Mas há uma história por trás dessa publicação que merece ser contada:

Em São Paulo, há um jornal voltado ao público infanto-juvenil, chamado Joca. Sua fundadora, Stéphanie Habrich, é quem assina o prefácio à edição brasileira de O diário de Myriam. Ali, ela conta que estava na França quando o livro foi lançado por lá, e falou sobre ele no site do jornal. Pouco tempo depois, muitas crianças já comentavam na publicação, dizendo que queriam ler a obra. E elas não pararam por aí: enviaram cartas ao Joca, pedindo uma edição em português. Diante disso, Stéphanie se pôs a procurar uma editora que se interessasse pelo projeto, e foi aí que a Darkside entrou em cena. Algumas das cartas foram reproduzidas no livro.

O diário de Myriam relata os dias de Myriam Rawick na Síria. Foi organizado pelo repórter de guerra francês Philippe Lobjois, que conhecera Myriam por intermédio da organização maristas azuis – que mantinha uma escola para famílias refugiadas em Alepo –, logo após chegar ao país, em 2016.

Myriam começa a contar sua história em uma espécie de flashback dos dias felizes, lembrando seus primeiros anos de vida, quando ninguém sequer sonhava com o que aconteceria. Esse trecho foi redigido em fevereiro de 2017, quando ela recém completara 13 anos.

O primeiro registro do diário é de 12 de junho de 2011, pouco antes das coisas começarem a ficar ruins na Síria. Myriam tinha sete anos e não sabia que, em menos de dois anos, em 30 de março de 2013, a família seria expulsa de casa pelos jihadistas. Tudo que conheciam se foi, transformado em um amontoado de concreto.

 

Referência:

RAWICK, Myriam; LOBJOIS, Philippe. O diário de Myriam. Tradução de Maria Clara Carneiro. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2018. 288p.