“A mim, causavam uma espécie de temor os rugidos extemporâneos daquela bicharada que eu, não conhecendo, imaginava enorme e perigosa”
Lembro da gritaria vinda do mato grande do arroio que quebrava o silêncio daqueles cafundós de campos, onde pontilhavam os angicos da beira da sanga, acima da floresta ribeirinha na várzea da divisa. Acontecia com frequência, nos dias armados para chuva, em tempos de primavera e verão. A mim, causavam uma espécie de temor os rugidos extemporâneos daquela bicharada que eu, não conhecendo, imaginava enorme e perigosa.
Depois, quando fui morar num acampamento às margens da BR-174 em construção, na divisa dos estados do Amazonas e de Roraima, próximo da Linha do Equador, eles apareciam em grandes bandos, passeando e gritando, em alarido medonho, numa estridente toada assustadora, no alto de castanheiras nativas e acariquaras imponentes, de trinta metros, que havia muito próximo das casas de madeira onde morávamos. Lá, eles eram chamados de Guaribas.
Conheci um exemplar isolado, quase doméstico, vivendo num bosque da Pousada Recanto do Ibicuí, em Manoel Viana. Esse, nem barulho se dava ao trabalho de fazer, para não despertar o sono da cachorrada do local. Comia o seu quinhão de cada dia e voltava para descansar nos galhos mais altos, meio que se escondendo das pessoas. Talvez curtindo a solidão da velhice.
Em 16 de dezembro de 2025, no dia em que escrevi esta croniqueta, alguém filmou e postou no Facebook um bugio bem tranquilo, desfilando pelo canteiro central da Av. Pinheiro Machado. ????!!!!
Recentemente, assisti a uma reportagem televisiva divulgando um programa de reinserção de umas dez criaturas dessas na floresta da Serra da Cantareira, ao norte da cidade de São Paulo, depois de terem sido salvas de uma epidemia de febre amarela que eliminou quase toda a população de cerca de cem animais nativos que moravam por ali.
Não é a primeira vez que abordo este assunto da volta dos animais silvestres aos seus habitats naturais, depois de uma época de caça indiscriminada e da falta da noção de preservação da bicharada solta e liberta pela natureza.
Havia um parente, mais velho do que eu, que morava no interior e que, certo dia, disse que não poderia usar uns avios guardados numa “bussaca” pendurada no galpão (uma bolsa feita com um cano de bota costurado com tento numa extremidade), porque ela estava sendo ocupada por uma corruíra que resolvera construir seu ninho justo no seu interior. Enquanto os filhotes não voassem, ele não poderia desalojar a família dos passarinhos recém-descascados.
Um tanto alarmado pela importância que meu primo velho dispensava àqueles bichinhos, lembrei de uma vez em que fui levar um recado para um vizinho, de a cavalo, e, na volta, retirei uma casa de joão-de-barro da cabeça de um moirão para presentear a minha mãe com aquele possível arranjo doméstico. Ao abrir outra porteira, sem apear, deixei a casa barrenta se espatifar na estrada: havia dois filhotinhos ainda não empenados que foram privados da existência pela curiosidade irresponsável de um guri da campanha.
Voltaram os jacus, que já são abundantes e até já cruzam com as galinhas, quando se misturam nos terreiros, na busca de alimento mais fácil, mas os agrotóxicos utilizados nas lavouras de soja, especialmente, vêm matando perdiz, avestruz, pomba do mato, saracura e até seriema. Só não exterminam nunca mesmo é os quero-queros, porque são sentinelas treinados para as guerras, curtidos nos combates de campo aberto nessas nossas coxilhas pampeanas.
Aliás, “o que mais tu queres, quero-quero louco? Será que achas que o que tens é pouco?”