Crônica/conto do Natal passado

São as coisas e os costumes simples que podem nos trazer alegria e felicidade interior, embora o mundo, artificialmente, nos ofereça ouros e pratas coloridos para comprar a nossa paz e nos vender ilusões fantásticas

O dia 25 de dezembro de 2022 amanheceu nublado, avisando que, naquela manhã, não haveria banho de piscina, cancelando um bom par de horas de relaxamento e displicência em uma data em que não havia nada de importante para se fazer. Nem trabalho, nem viagens e nem compromissos de marca maior. Nem dinheiro disponível para comprar presentes pros netos e alguns outros merecedores mais queridos.

O jornal chegou bem cedo, porque o entregador precisou tentear uns trocados extras para ajudar na ceia da noite, em família, segundo ele próprio suplicou, por ocasião da entrega do exemplar mais gorduchinho dos sábados. E não havia uma foto grande do Papai Noel na capa dele, apenas breves e discretas referências restritas a poucas páginas dos cadernos interiores. Seria, talvez, indício da queda do prestígio do bom velhinho em tempos de polarizações diversas e esperanças poucas?

Fora no mercado na tarde anterior para se livrar das filas enormes bem comuns naqueles dias de últimas compras e daquela montoeira de gente no calorão da estação. Tudo na tranquilidade, de pouca gastança.

Um jovem garnisé de canto desafinado ecoava provocativo, de frente para e a pequena distância da gata, que dormitava, estirada na pedra quente da calçada. Um casal de beija-flores esvoaçantes insistia em beber as últimas gotas de água doce do bebedouro pendurado na varanda da frente, e um canário da terra amarelo, cor de ouro, repetia de bico aberto o seu trinado de alegria inconfundível, em cima da casa, do seu ninho de todos os anos.

Na verdade, aquele dia nem se parecia com um dia anormal e, ao mesmo tempo, especial das tradicionais Festas Natalinas… Filmes mentais, ancorados nas lembranças muitas e diversas, não aceitou de pronto reprisar. De que valeriam as lembranças antigas para quem vive teimando em viver mais e melhor? Para frente é que se anda, e com um olhar de viés para cima, para o alto, quase de soberba, em função da busca perene de descobrir novos rumos, tropeando sonhos, escantilhando rumos visíveis e imaginários, podendo até serem virtuais, para confirmar sua adesão ao pós-moderno dos nossos tempos novos.

Perambulou pela casa e arredores e descobriu um mogango amarelo, grandote, ainda ensacado num dos cantos da área de serviço: sim, isto sim seria uma boa ideia: cozinhar um mogango caramelado para entreverar com o churrasco de ovelha do dia 25. Facão na mão, em cima de um banco de matear solito, e lá se espatifou o “fruto” rasteiro de verão, de apetite sem igual. Ou, quem sabe, com leite gelado, de sobremesa, na sombra fresca do cinamomo, num prato fundo de tomar sopa no inverno…

Simplório este meu causo natalino? Pode ser que sim, os leitores é que irão dizer. Mas eu, cá com os meus botões antigos, de casas gastas pela usura, de tanto percorrer caminhos, retos e tortuosos, lhes deixo um mote para um bom jeito de pensar: são as coisas e os costumes simples que podem nos trazer alegria e felicidade interior, embora o mundo, artificialmente, nos ofereça ouros e pratas coloridos para comprar a nossa paz e nos vender ilusões fantásticas.

Falando nisso, já faz um ano que foi Natal. FELIZ NATAL DE 2023 para todos e os tantos que ainda acreditam no seu simbolismo mágico e benfazejo.