“De um mate em outro, a gente vai enredando alguns tentos”

Com esta frase, Guilherme Oliveira Jacobsen, um dos alunos da ETERRG que desenvolve o trabalho da guasqueria, descreveu o dia a dia do artesão que lida com o couro cru

Por Luiz Felipe de Oliveira

Os jovens guasqueiros Erick Delgado, Guilherme Jacobsen e Emily Batista falaram sobre a arte de trabalhar com o couro cru
Os jovens guasqueiros Erick Delgado, Guilherme Jacobsen e Emily Batista falaram sobre a arte de trabalhar com o couro cru

Na tarde de terça-feira (12), a Gazeta foi até a Escola Técnica Estadual Dr. Rubens da Rosa Guedes (ETERRG) para um bate-papo com os alunos Emily de Melo Batista, 17 anos, natural de Caçapava, Erick Oliveira Delgado, 18 anos, também caçapavano, e Guilherme Oliveira Jacobsen, 18 anos, nascido em Lavras do Sul. Os três são jovens guasqueiros, e Emily e Guilherme, inclusive, apresentaram o trabalho “Guasqueria: A Arte Gaúcha do Couro: um olhar sustentável voltado à produção de peças em couro cru”, na casa da Associação Gaúcha de Professores Técnicos de Ensino Agrícola (AGPTEA), na Expointer, em 31 de agosto.

A palavra Guasqueria significa ‘tira de couro’, e o guasqueiro é o artesão que lida com o couro cru na confecção de diversos produtos. Esses vão desde os de uso campeiro – especialidade de Erick, que produz cordas, tarcas, rédeas, cabeçadas e bainhas – até objetos de uso mais geral – especialidade de Emily e Guilherme.

“Fazemos bastante chaveiros, porta cuia, capas de cadernos, cintos e outros tipos de vestimentas”, explica Emily. Entretanto, segundo Guilherme, é comum que o guasqueiro saiba de tudo um pouco, já que trabalha, na maioria das vezes, por encomenda.

Com o trabalho apresentado na Expointer, eles quiseram realizar um resgate cultural da arte guasqueira, ligada à própria identidade do povo gaúcho, com o objetivo de mostrar a rentabilidade da profissão dentro do mercado de trabalho. De acordo com Emily, “na maioria das vezes, a guasqueria é considerada como uma segunda fonte de renda, e com o nosso trabalho conseguimos mostrar, através de um estudo de caso, que ela pode ser a renda principal do artesão, agregando também valor cultural e histórico”. Daí então o olhar sustentável para a profissão, que, para Guilherme, tem potencial.

Estes são alguns dos produtos e ferramentas de trabalho de Emily e Guilherme, como bainhas, chaveiros, cintos e porta cuia.
Especialidade de Emily e Guilherme são produtos de uso geral. Na foto, além de artigos produzidos por eles, estão algumas das ferramentas utilizadas

Sobre seus primeiros passos no mundo da Guasqueria, Erick contou que “com uma folha de butiazeiro, fabriquei minha primeira peça, uma gaitinha, como chamamos, com a ajuda de dois colegas”. Em seguida, ele começou a auxiliar e a aprender a fabricar outras peças com um vizinho e não parou mais.

Guilherme é neto de guasqueiro e, ainda criança, fora encantado pela arte. “Sempre gostei de ver o desenho das cordas que formava o interlaçado dos tentos”, disse. Porém, nunca imaginou a arte como sua profissão. Quando mais velho, já em Caçapava, pegou um cadarço de uma velha botina e começou, aos poucos, a lidar com o couro. “Era ali que eu treinava trança e gaitinhas, que nem o Erick”, relatou.

No caso de Emily, sua inserção no mundo da Guasqueria foi diferente. Em busca de um tema para seu trabalho final da escola, decidiu pesquisar o que a literatura dizia sobre o trabalho que seus amigos vinham realizando. “Fiquei impressionada com o baixo número de mulheres guasqueiras. Foi então que decidi explorar esse tema, me baseando na obra da Juliana Porto Machado, que estuda o papel do gênero na guasqueria”. Em pouco tempo, ela já estava produzindo também, e sua primeira peça fora um cinto que usa até hoje.

Sobre o que a arte guasqueira representa para eles, os alunos disseram que é “muito mais um lazer do que um trabalho, porque é uma coisa que te acalma muito, tem que ter muita paciência. Acalma a correria do dia a dia, porque o mundo atual é tudo para ontem, e o artesanato vem para acalmar isso, é uma terapia”, disse Guilherme. “É uma conexão de mente, alma e corpo. Quem produz, desenvolve um sentimento de amor”, finalizou Emily.

Cabeçada para cavalo feita por Erick
Erick Delgado é especialista em fabricar produtos para o uso na lida campeira (crédito: arquivo pessoal)

Fotos: Luiz Felipe de Oliveira