Como é bom viver em região de quatro estações. Admiro os países nórdicos e sua cultura, regimes de governo que priorizam a defesa dos direitos humanos, e a equilibrada partilha de bens públicos, promovendo a igualdade social.

Mas não sei como podem viver seus habitantes num clima sempre igual, ou com poucas variações. Muita neve, frio, dias sem sol… E a taxa de suicídios considerável.

Nós, do Sul, temos de tudo: céu, sol, chuva, frio, brisas agradáveis e ventanias. Não podemos queixar-nos, há clima para todos os gostos.

Se fizéssemos uma enquete, creio que o outono estaria em primeiro lugar, ganharia das demais estações. Ou será por que somos um país de mais idosos do que jovens? Esses preferem o calor, as praias, os acampamentos, as aventuras.

Agora chegou a vez das paineiras. Na estrada que percorri semana passada até Pelotas, o que mais me chamou a atenção, além dos campos verdes com rebanhos de bovinos, ovinos, cavalos e até caprinos; e o amarelo das plantações, a terra recém-lavrada à espera de novas sementes, foram as paineiras exibindo suas flores. E, como sempre essa visão me levou ao passado, ao tempo de estudante em Cachoeira do Sul.

Lembrei a paineira que ficava no caminho para chegar à Escola João Neves. Nos invernos, ela parecia chorar quando chovia, e sua ramagem se curvava tristemente, parece que se solidarizando comigo, nas incertezas e mágoas da adolescência. Então, foi a figura da professora Dalila, de Psicologia, que me veio à lembrança. Era alegre, suas aulas bem animadas falavam de frustrações, complexos, humores próprios dos jovens em seus primeiros vôos e a descoberta do outro. Sim, porque era quando descobríamos que os colegas de estudos eram também nossos colegas na etapa da vida que estávamos vivendo.

E a timidez era um dos traços que a querida professora nos animava a perder. Abrir-se, não recalcar sentimentos, rancores e tristezas. E vencer os complexos, sejam de inferioridade ou superioridade. Somos todos dotados de méritos e de defeitos.

Uma personagem de minha vida que me marcou positivamente.

Num outono, por ocasião da Páscoa, ela foi passar o feriado em Porto Alegre, onde a família morava, e também seu noivo. Levava uma enorme bagagem, que não conseguiu carregar até o seu vagão no trem. Na mala estava o enxoval, peças bordadas artisticamente por profissionais cachoeirenses do ramo que eram muito solicitadas em toda a região. Não via a hora de chegar e mostrar aquelas belezuras para os familiares.

Chegando ao destino, cadê a mala? Funcionários do trem procuravam em todos os vagões, mas sem resultado.

Na volta às aulas, compartilhamos seu pesar, mas a professora não perdeu o bom humor e mostrava a cada dia novo traje, com ar de graça, pois até seus vestidos sumiram para sempre.

Ainda bem que a paineira da vizinhança estava coberta de flores e acenava amigavelmente para os passantes nas manhãs azuis daquele outono.