Ecos do passado

“Eu fico pensando, como seria bom se toda criança tivesse a família em torno, fazendo-a participar das atividades da casa, ajudando-a nas lições da escola, contando histórias dos antepassados”

Ultimamente, costumo acordar-me com uma música infantil soando na minha cabeça. É minha trilha sonora que vai acompanhar-me por toda a manhã. São ecos que me chegam da infância e dos brinquedos de roda e pega-pega, no meio da rua, nas noites de verão. Irmãos, primos e vizinhos – nossa quadra da Rua 7 era cheia de crianças – se uniam numa algazarra feliz. Os adultos, sentados à frente das ruas, descansavam das lidas do dia, observando-nos tranquilos. E nos socorriam nas quedas e machucaduras.

Hoje, em volta da mesa do café da tarde, na minha mana, pessoas de quatro gerações de nossa família, mais genros e noras, observam encantados as artes dos novos rebentos, de um a quatro anos de idade, que são nossos mimos. Foi quando me lembrei de uma cantiga de passa-passará, que foi minha trilha sonora daquela manhã. As pessoas de mais de sessenta anos se lembravam dela e me ajudaram a conhecer a palavra que faltava. Eu cantava: “A bibora da cruz”, e alguém me corrigiu. Era “a víbora da cruz / por aqui quero passar / por aqui eu passarei / e uma delas pegarei”.

Então, minha mana contou que, toda vez que íamos à casa dos avós, nossas tias lhe diziam na saída: “Deus te crie pro bem”. E ela entendia: “Deus te gripe pro bem”. Naturalmente, ela ficava muito confusa. E a Daniela lembrou que, na cantiga do “Atirei um pau no gato tô-tô”, ela não entendia “o berrô que o gato deu”. Só depois de maior, ela ficou sabendo que era “o berro”.

No correr da tarde, quanta musiquinha foi cantada com nossos pimpolhos. Elas sabiam responder onde estava o toucinho e apontavam para a mãozinha aberta. O fogo queimou, a água apagou, tudo isso, expressavam com gestos, mostrando como entenderam a mensagem.

E eu fico pensando, como seria bom se toda criança tivesse a família em torno, fazendo-a participar das atividades da casa, ajudando-a nas lições da escola, contando histórias dos antepassados. Elas não teriam tantos problemas na escola, com evasões, deveres não cumpridos, brigas entre colegas. Saberiam o valor da paz que vem do afeto, do querer bem aos outros como a si mesmos. E as comunidades colaborando para o bem comum seria uma graça que, espalhando-se, levaria o cessar fogo a todas as nações em guerra.