Elas deixam rastros brilhantes

Ao abrir a porta dos fundos nesta manhã, deparei-me com uma trilha brilhante, desenhada nos ladrilhos do meu pátio

Nas minhas leituras de romances policiais, os detetives, para chegarem aos culpados, começam vasculhando o local onde encontraram a vítima do crime. Tiram fotos de marcas de pneus, de solas de sapatos e, nos arredores, procuram a arma ou qualquer objeto que identifique o culpado.

Hercule Poirot, o detetive dos bigodes encerados que Agatha Christie criou, não faz uma coisa nem outra. Fica sentado em sua poltrona, sorvendo infusões de ervas ou bebendo um licor açucarado. Acredita – coberto de razão – que sua massa cinzenta, posta a funcionar, vai resolver os mistérios.

Ele é belga, mas pensam que seja francês, engano este que Poirot não cansa de desfazer. Apesar de residir no Reino Unido e ter ligações com a famosa Scotland Yard, adora a culinária francesa, aborrecendo o desjejum inglês, de rins, ovos estrelados e outros elementos gordurosos. Seu maior prazer é comer bem. Assim procura os restaurantes que lhe podem oferecer os pratos de seu gosto.

Voltando ao momento presente, ao abrir a porta dos fundos nesta manhã, deparei-me com uma trilha brilhante, desenhada nos ladrilhos do meu pátio. Ah, lesmas pegajosas, onde vocês se escondem? Deixam o sinal só para me provocar?

E meu exercício físico matinal começa pegando pá e vassoura para caçá-las nos muros e atrás dos tufos de folhagens. Foi então que me lembrei de Poirot e sua paixão por escargot, aquele molusco da mesma família das lesmas. A França é a maior adepta desse prato, que dizem ser bem higiênico e gostoso. Depois de cozido ele volta ao seu caracol devidamente asseado.

Mas voltando aos indícios de marcas de pneus, de sola de sapatos e de rastros de lesmas, como é que há tantos crimes não solucionados em nosso mundo civilizado? Por que acontece de a autópsia revelar ausência de água nos pulmões da vítima, quando a polícia continua a sustentar que o garoto se afogou de propósito?

De tanto assistir pela TV a flagrantes de batidas policiais terminarem em mortes de inocentes, como o caso do motoboy que saía para o trabalho e foi confundido com um ladrão, passei a procurar outros canais que mostram as maravilhas de regiões turísticas, que lavam a alma por seus encantos.

Será por ser negro? Na dúvida se era culpado ou inocente, o policial deu um tiro em sua perna. Caído no chão, ele ainda dizia “eu sou um trabalhador”. Mas o Agente da Segurança, esquecendo que sua missão é defender a população, deu-lhe o tiro derradeiro.

São fatos desse tipo que nos fazem pensar: o que vale mesmo? Os indícios, as suspeitas, a massa cinzenta do Poirot, ou nossa capacidade de sentir, socorrer, lutar pela justiça, humanidade, igualdade? E àqueles cuja missão é proteger-nos dos criminosos, não estará faltando novos treinamentos que os coloquem nos objetivos certos e acabem com sua mania de querer fazer justiça – ou injustiça – pelas próprias mãos?