Especialista caçapavano reforça a importância da doação de órgãos

Membro da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos, do Hospital Universitário de Santa Maria, o enfermeiro Fernando Tolfo compartilhou sua experiência e esclareceu aspectos importantes sobre o processo de doação

FernandoTolfo
Crédito: Luiz Felipe de Oliveira/Gazeta de Caçapava

Em 27 de setembro, o Brasil celebrou o Dia Nacional da Doação de Órgãos, data dedicada à conscientização sobre a importância desse gesto solidário que salva vidas. Para discutir o tema, o enfermeiro Fernando Tolfo, especialista em transplantes e membro da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos (CIHDOT), do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), compartilhou sua experiência e esclareceu aspectos importantes sobre o processo de doação.

Fernando, que atua na área desde 2009, destacou o impacto que um transplante pode ter na vida dos pacientes.

– Para quem está em diálise ou usa oxigênio 24 horas por dia, o transplante significa trocar essas máquinas e tratamentos constantes por comprimidos diários. Isso traz uma enorme liberdade e melhora na qualidade de vida – explicou.

Doação de órgãos no Brasil: um processo criterioso

No Brasil, todo transplante de órgãos é realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que garante que o procedimento seja acessível a todos os cidadãos, independentemente da sua condição financeira. Fernando Tolfo enfatizou que, apesar de algumas pessoas acreditarem que existe uma fila simples de espera para receber um órgão, o processo é muito mais complexo e justo.

– Não é uma fila, é uma lista de espera. A ordem de transplante não funciona como uma fila comum, porque há uma série de fatores que determinam quem recebe o órgão, e o principal é a compatibilidade entre o doador e o receptor – explicou.

Isso significa, de acordo com ele, que a prioridade não depende apenas do tempo que o paciente está esperando, mas também de características como tipo sanguíneo, altura, peso e até o estado de saúde de quem está aguardando.

– Uma pessoa que está na lista de espera há mais tempo pode não ser compatível com o órgão disponível. A escolha do receptor depende do quanto o órgão vai beneficiar aquela pessoa, e isso só é possível quando há compatibilidade física entre doador e receptor – complementou.

Impacto econômico e social

Além de salvar vidas, o transplante de órgãos representa um alívio para o sistema de saúde pública. Tolfo explica que tratamentos como a hemodiálise, usada por pacientes com insuficiência renal, são muito custosos para o SUS.

– A hemodiálise envolve três sessões semanais, e, ao substituir esse tratamento por medicamentos após um transplante, os custos são significativamente reduzidos – afirmou.

Ele lembrou que essa substituição também beneficia o paciente, que pode retomar uma vida mais ativa e produtiva após o transplante.

O processo: doadores vivos ou falecidos

Fernando Tolfo também explicou que a doação de órgãos pode ser feita de duas formas: através de doadores vivos ou falecidos. No caso de doadores vivos, é possível doar um dos rins ou parte do fígado ou pulmão, já que esses órgãos podem se regenerar ou funcionar adequadamente com uma parte menor. A doação em vida, no entanto, requer uma avaliação médica rigorosa para garantir a segurança tanto do doador quanto do receptor.

Já no caso de doadores falecidos, a doação ocorre após se confirmar que houve morte encefálica.

– A morte encefálica é definitiva e irreversível, diferentemente do coma, onde ainda há atividade cerebral – explicou o especialista.

Neste cenário, a família é consultada para decidir sobre a doação dos órgãos.

Fernando ressaltou que, mesmo que a pessoa tenha manifestado o desejo de ser doadora, a decisão final cabe à família.

– É fundamental conversar sobre a doação de órgãos com seus familiares. Isso facilita a decisão em momentos de perda, quando é difícil pensar racionalmente – afirmou.

A importância da conscientização

Para o especialista, a conscientização sobre a doação de órgãos deve ser um trabalho constante, tanto em campanhas públicas quanto nas escolas.

– Muitas pessoas têm receios ou desinformações sobre a doação de órgãos, o que dificulta o aumento de doadores – disse Fernando.

Ele acredita que informar a população desde cedo pode ajudar a mudar essa realidade.

Além de órgãos como coração, pulmões, fígado e rins, Tolfo também destacou que tecidos como córneas e pele podem ser doados, o que proporciona uma recuperação de funções vitais e melhora a qualidade de vida dos receptores.

Casos de sucesso e esperança

Fernando compartilhou algumas histórias de transplantes bem-sucedidos, envolvendo pessoas que, após anos de tratamentos exaustivos, receberam órgãos compatíveis e tiveram suas vidas completamente transformadas.

– Temos pacientes que, após muito tempo de espera, foram transplantados e conseguiram retomar suas vidas normais. O transplante não apenas salva vidas, mas devolve qualidade e dignidade para essas pessoas – relatou.

A mensagem final: o poder da decisão familiar

Ao encerrar a entrevista, Fernando Tolfo deixou uma mensagem de incentivo para que todos conversem com suas famílias sobre a doação de órgãos:

– A decisão de doar é um ato de amor que pode salvar muitas vidas. Expressar esse desejo e comunicar à família pode facilitar esse processo em momentos difíceis.