“Desta vez, sonhei que haveria uma formatura militar da guarnição de Santa Maria, na ladeira da Rua Venâncio Aires, próximo do Centro da cidade”
Já escrevi por aqui alguma estória relativa aos meus sonhos não programados que abordam algum incidente dos tempos de “milico”, e que povoam minhas noites de bom sono desde sempre. Desta vez, sonhei que haveria uma formatura militar da guarnição de Santa Maria, na ladeira da Rua Venâncio Aires, próximo do Centro da cidade. (O que nunca houve, e acredito que nunca vai se realizar, pela reduzida largura da rua e pelo incômodo que acarretaria ao trânsito, se tivesse que ser interrompida para apresentações militares. As paradas são no Boi Morto, na Av. Medianeira, ou naquela avenida onde também acontece o Carnaval, próximo do Mallet).
Pois no meu sonho, quando me aproximava do palanque, onde teria de me apresentar ao general comandante, me dei conta de que havia esquecido a espada que todo oficial precisa portar em dias de parada. Encontrei um soldado da minha unidade que ficara cuidando de uns cavalos, na rua próxima à praça da Corsan, abaixo do Calçadão. Montei num corcel tipo do Caramelo e fui até em casa apanhar minha arma branca.
Chegando de volta ao local da formatura, lembrei que não havia pegado as luvas pretas de couro, obrigatórias para manusear a espada. Lembrei, no sonho, claro, que havia um oficial, ali bem próximo, que tomava conta de uma instalação onde se guardavam munições, e que deveria ter uma espada e um par de luvas das que eu precisava. Encontrei com ele, um jovem tenente que se prontificou a emprestar tal peça do uniforme, mas que precisaria desligar o sistema de alarme existente, o que demoraria algum tempo mais, por causa da segurança. No meio do processo, choveu e alagou o mecanismo, etc. etc. etc.
Acordei às nove da manhã, sem ter alcançado o final do meu sonho e com uma sensação de devedor perante a minha antiga profissão das armas. Matutando, imaginei os tipos de sonhos que devem andar povoando as noites do ex-presidente Bolsonaro, depois de tantos rebuliços extravagantes acontecidos em sua carreira de militar e de político, hoje preso numa cela da Polícia Federal, em Brasília, onde há pouco tempo exerceu o cargo máximo da república.
A sua trajetória, a meu ver, deixou de observar preceitos obrigatórios e fundamentais à sua sobrevivência, a saber: quando foi eleito presidente do Brasil, no contexto da prisão do Lula, não soube conduzir a “despetização”, agindo com truculência e conquistando a antipatia da imprensa do país; ao destituir o ministro Mandetta, da Saúde, no início da pandemia da Covid-19, meteu os pés pelas mãos; quando formou a chapa para reeleição, com o Lula solto por decreto do STF, não soube escolher seu vice, que deveria ter sido a então ministra da Agricultura e senadora Tereza Cristina, e não um general; e quando foi declarado inelegível, sem ter cometido crime eleitoral nenhum, já deveria ter se autoexilado, para fugir das condenações polêmicas que recebeu.
Na verdade, a política também é um sonho, em cuja seara apenas uns poucos conseguem se dar bem, e a maioria das pessoas de bem que se enredam nela acaba prejudicada financeiramente e decepcionada pelo resto da vida.
Agora, vou a um jornaleiro da cidade, comprar um livrinho daqueles que traduzem o significado dos sonhos, para saber por que é que ando sempre sonhando que ainda estou no quartel.