Já faz quase um ano que eles “descobriram” Machado de Assis. As aspas são porque, segundo publicado no site da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a primeira vez que algo do autor foi publicado nos Estados Unidos foi em 1917, mas não houve grande interesse naquele momento. Bem diferente do que ocorreu agora… Em 2 de junho de 2020, uma tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas foi lançada pela Penguin Classics, e toda a tiragem esgotou em um dia. Eu descobri isso nessa semana, quando um amigo me enviou um post da Bienal no Instagram. No texto completo, que está no site da Bienal, é citado um comentário do escritor Dave Eggers, que, em resenha publicada na revista The New Yorker, diz que Brás Cubas é um livro “dos mais vivos e atemporais de todos os tempos”. E nós? O que fazemos? O que dizemos de nossos clássicos?

Pensando sobre isso, lembrei que, algum tempo atrás, vi certa polêmica no Twitter sobre a leitura de clássicos. Para contar toda a história, desconfio que teria de pedir a licença da dona Anna Zoé pra usar mais espaço, e eu não quero ter de fazer isso. Então, vamos ao estritamente necessário. O influenciador digital Felipe Neto disse, dentre outras coisas, que “Álvares de Azevedo e Machado de Assis não são para adolescentes!” Ele foi criticado por isso, respondeu, e a discussão rendeu bastante. Mas por que eles não seriam para adolescentes? Qual a idade certa para se ler determinados livros?

Felipe Neto, em um de seus posts, falou sobre o ensino de literatura na escola. Não vou mentir que amei ler todas as obras que fui obrigada na adolescência. Já falei várias vezes que tenho problemas com leituras obrigatórias, e sou da época em que havia listas de livros que devíamos ler para as provas do vestibular, da época em que se tinha que fazer uma prova pra UFSM, uma pra UFRGS, uma pra UFPel, etc, e cada uma com sua lista própria, nem sempre coincidindo muitos livros. Lembro que a UCPel tinha na sua um autor de Pelotas que eu nunca tinha ouvido falar, e, naquela época, não era como hoje, que a gente põe no Google e acha. Eu não consegui sequer descobrir quem era ele, então, uma questão a menos que eu poderia acertar na prova.

Dos que li, alguns me deram bastante trabalho, principalmente em questão de termos utilizados, formas arcaicas, mas não lembro de nada que não tenha se resolvido, nada que não tenha dado para entender. Hoje, então, com todas as facilidades que temos para pesquisar, aprendemos muito mais. Dizer que certos autores não são para adolescentes é, de certa forma, nivelar por baixo nossos estudantes; é dizer que eles não devem ler aquelas obras porque não são capazes de entender. Eles devem ler, devem experimentar para saber se aquela obra é do seu gosto. Literatura é, em grande parte, isso: gosto. Tem quem goste de Paulo Coelho, tem quem goste de Tolkien, tem quem goste de Machado de Assis, tem quem goste de todos eles.

Outra coisa que Felipe Neto disse para quem o rebateu foi que essas pessoas eram ou foram “adolescente[s] fora da curva”. Mas por que fora da curva? Que curva é essa? Repito: literatura é, em grande parte, gosto. Se você é adolescente e gosta de ler Machado de Assis, tá tudo bem. Se você é adolescente e não gosta de ler Machado de Assis, tá tudo bem também.

A essa altura do campeonato, você deve estar achando que eu esqueci o coitado do Brás Cubas, mas não. Tudo isso foi porque, de todos os clássicos que fui obrigada a ler quando no ensino médio, Brás Cubas foi o que mais gostei, e entendo completamente a empolgação dos estadunidenses com a obra. É uma autobiografia narrada por alguém que já morreu… Acho esse livro genial! Por isso, recomendo a leitura.

E quero dizer aos adolescentes que, mesmo que alguém diga que tal livro é ruim, que de tal livro você não vai gostar, que tal livro é difícil de ler, leia. Só você pode dizer o que acha bom ou ruim, o que gosta e o que não gosta, o que acha fácil e o que acha difícil.

Para quem quiser ler Brás Cubas e conferir se falo a verdade e o livro é realmente genial, há exemplares disponíveis no Chalé dos Livros.