“Cada vez mais me convenço de que, muito em breve, já não teremos mais gaúchos como antigamente, tal é a quantidade de frescura que estão adotando em nossas lidas genuínas da campanha”
Há muitos anos passados, em priscas eras, quando Jesus Cristo ainda andava no mundo, ou pouco tempo depois, quando não havia televisão, nem telefone celular e muito menos internet, naquele tempo que eu costumo chamar de “antanho”, pois foi justo naquele tempo que arrumei a minha primeira namorada. Foi um fato inusitado e não previsto pela galerinha que eu integrava na condição de guri jogador de futebol pelos campinhos do Ilo, da pracinha Tamandaré e forte D. Pedro II.
Lembro que, num encontro casual, na esquina da Coriolano com rua da Komaco, disse para ela que tinha sido uma grande coincidência a nossa esbarrada. Ela não sabia o que queria dizer coincidência, e tive de descobrir um sinônimo às pressas, para não perder o fio do assunto.
Pois hoje em dia, todo mundo utiliza rotineiramente, além de palavras não usuais em português, expressões da língua inglesa, em virtude da popularização das redes sociais e dos celulares deste nosso mundo velho cosmopolita.
Quando ainda estudava no Dinarte Ribeiro, na década de 1960, a professora orientou a uma aluna que estava escrevendo no quadro negro que traçasse uma “ceta” para destacar uma palavra no seu texto. Eu é que não sabia o que era “ceta” e senti um enorme sentimento de empatia ao imaginar que, se tivesse sido eu a receber tal ordem, não saberia o quê fazer.
Muitos anos depois, quando realizei a prova de habilitação em espanhol para poder concorrer a uma vaga para uma missão no exterior, na condição de militar (quando se ganha em dólar), me enrolei no início do texto que teria de traduzir: empaquei na “cucaracha” e, só depois de lembrar de uma música popular da época, me dei conta que significava a asquerosa barata. La cucaracha… La cucaracha…
Nos dias de hoje, as expressões e palavras estrangeiras viraram rotina nas placas e letreiros de lojas, restaurantes e comércio em geral, e até em nomes próprios de pessoas são aceitas e adotadas com naturalidade. Antigamente, o registrador do cartório não aceitava nomes alienígenas para recém-nascidos e nem as combinações de parte dos nomes de pai e mãe para formar um terceiro nome que homenageasse a ambos. Mas os cachorros sempre tiveram nomes de Rex, Toby, Paco, Albert, etc. Eu já gosto mais dos diminutivos para batizar os meus animais de casa: Titica, Ferrugem, Lilica, Pururuca, etc.
Falando das modernidades de hoje em dia, um amigo me disse que havia pensado em me presentear com um acendedor para principiar fogo de lareira, churrasqueira ou fogão campeiro. Recusei, em nome dos meus princípios campeiros. Sou do tempo que fogo se iniciava com palha de milho e graveto. Quanto às palhas, ainda admito empregar um jornal velho, mas dos gravetos não abro mão. Onde já se viu um gaúcho raiz usar acendedor e espeto rotativo! O melhor do churrasco caseiro é poder ir virando o espeto e acompanhando a assadura das carnes, entreverando um trago de permeio. De mate e canha/cerveja.
Cada vez mais me convenço de que, muito em breve, já não teremos mais gaúchos como antigamente, tal é a quantidade de frescura que estão adotando em nossas lidas genuínas da campanha.