Guerra de vizinhos

Seu Zeca gostava de chimarrear todas as tardinhas com o vizinho Aristides. Ficavam lembrando fatos passados, comentavam as novidades, e a vida seguia tranquila. Mas, como tudo na vida, esse prazer terminou

Ter bons vizinhos é uma graça! Faltando algum ingrediente para o cardápio, sal ou açúcar, é só levar uma xícara e pedir, prometendo pagá-la em seguida. Muitas vezes dá um branco e a gente esquece. Ou precisando de um socorro, poder contar com alguém mais próximo.

Seu Zeca gostava de chimarrear todas as tardinhas com o vizinho Aristides. Ficavam lembrando fatos passados, comentavam as novidades, e a vida seguia tranquila. Mas, como tudo na vida, esse prazer terminou. Suas esposas desentenderam-se por causa das brigas dos filhos. E as respectivas portas se fecharam para as duas famílias.

Quando a rua recebe novos moradores, com jovens barulhentos e sua música alta ou o ronco de motocicletas, o sono não vem e a animosidade das vítimas cresce contra os transgressores e seus pais. Os cumprimentos vão rareando ou ficando de cara amarrada, e nem pensar em pedir alguma coisa que falte nessas moradias.

Muitos são os motivos para gerar antipatias entre pessoas que vivem próximas. No momento, em quase todas as vizinhanças, o problema de relacionamento tem sido o mesmo: o lixo. Pois é, venho observando que muitas lixeiras da minha rua têm um aviso em letras graúdas: “Não coloque lixo”. Minha ajudante até seguiu o exemplo, mas, no meu caso, o apelo não foi aceito.

Noto, também, que os moradores, cansados de tantos pedidos não atendidos, arrancaram a lixeira da frente de suas casas. Agora, os sacos de lixo ficam pendurados nas grades ou nas árvores da frente. Fica feio. Que pena!

Alguém me deu a sugestão de colocar tampa com cadeado e só abri-la quase à hora da passagem do caminhão do lixo. Mas os vizinhos teimam em colocá-lo à noite, e os cachorros vira-latas fazem sua festa, rompendo as sacolas e fazendo um grande esparramo pela calçada. Estou nesse impasse: tampa com cadeado ou arrancar a lixeira.

Fico lembrando aquela historieta engraçada do João do Coqueiro. Do cidadão que cansou de ganhar apelidos e resolveu morar numa ilha. Mas tinha vizinhos que começaram a chamá-lo de João do Coqueiro, antes de saber o seu verdadeiro nome. João resolveu pôr abaixo aquela árvore. Mas passaram a chamá-lo de João do Toco. Furioso, João cavou um buraco para tirar o toco. Foi esse o apelido seguinte: João do Buraco. Desesperado, tapou o buraco, e aí ficaram chamando-o de João do Buraco Tapado.

Estão falando em 3ª Guerra Mundial. Com as armas modernas, não vai sobrar nada. E as guerras, como iniciam? Nos pequenos grupos, lares, famílias, vizinhanças, escolas, sociedades, governos… A semente germina e se espalha. Mas há um jeito de impedir que cheguemos à guerra. Vamos ser gentis e tolerantes uns com os outros. Servir mais do que exigir, entender seus problemas e ajudá-los nas soluções.

De agora em diante, podem usar minha lixeira, mas com essas condições: lixo bem embalado e colocado próximo à passagem do caminhão de coleta. Assim, minhas ajudantes não terão mais o desprazer de recolher a sujeira que se espalhou e de, toda manhã, precisar lavar a calçada.