Lembranças que adoçam a vida

Amigas de longa data, reuniam-se anualmente para planejar viagens, agora aposentadas, filhos criados ou pelo menos na idade da razão. Viúvas algumas, separadas ou solteiras outras, e casadas, estavam de acordo que o momento era agora, e não depois que envelhecessem. Falavam sobre pontos turísticos que ainda não conheciam ou desejavam conhecer, quando uma delas se manifestou

Amigas de longa data, dos tempos de colégio ou faculdade, reuniam-se anualmente para planejar viagens, agora aposentadas, filhos criados ou pelo menos na idade da razão. Viúvas algumas, separadas ou solteiras outras, e casadas, mas com marido compreensivo, estavam de acordo que o momento era agora, e não depois que envelhecessem.

Falavam sobre pontos turísticos que ainda não conheciam ou desejavam conhecer, quando uma delas se manifestou: “Planejamos ir bem longe quando, aqui na cidade, nunca me dei oportunidade de conhecer os pontos que vêm atraindo tantos turistas!”

“Concordo”, disse a mais calada de todas, “pois nasci e me criei na Cidade Maravilhosa, e passei a maior parte de minha vida sem conhecer seus encantos. Era de uma família pobre, moradora dos subúrbios. Minha mãe fazia pequenos serviços para lares mais abastados. Lavava roupa e a levava de bonde até a patroa. Meu pai era uma figura meio invisível. Trabalhava de vigilante de lojas e, quando vinha de manhã, não queria conversa, só gritava, reclamando de tudo, e ia dormir. Andávamos em silêncio para não acordá-lo.

“Na escola me perguntavam se eu conhecia o Pão de Açúcar e o Corcovado. Eu ficava triste, costumava vê-los em cartão-postal. Minha mãe era uma doçura. Ela guardava as moedas que sobravam das compras, depois que recebia dos trabalhos, numa lata vazia de biscoito. E um dia, nos deu uma surpresa: ‘Amanhã, não vou trabalhar, vamos passar o dia visitando alguns pontos turísticos do Rio. Vamos levar merenda para os piqueniques. Vocês me ajudam?’

“Passamos uma semana em suspenso. Era só no que pensávamos. Na escola, ficamos mais atentos às aulas de Geografia e aprendemos a localizar os pontos que nos atraíam e como chegar até eles. Renunciamos à mesada da mãe para contribuir nas despesas.

“Na véspera, deixamos à mão a roupa apropriada e os cestos com nossas preciosidades: peteca, bola, corda de pular e chapéus de praia.

“Mas, pela manhã, nosso sonho acabou. Chuvas, ventos e trovoadas frustraram nossos planos. Mas a mãe nos animava: ‘o que é isso, o mundo não vai acabar’. E encaminhou-nos para a pequena sala onde estendera no chão uma toalha xadrez, com bandejas de papelão, cheias de salgados e bolos, garrafas térmicas com sucos e café, e uma provisão de frutas e docinhos para saborearmos naquele improvisado piquenique.

“Tivemos licença para improvisar barracas com lençóis e acolchoados, podíamos cantar alto, pular e divertir-nos à vontade, como se fora em pleno ar livre.

“Quando adulta, em companhia de meu noivo, foi que conheci o Pão de Açúcar e o Corcovado. Eles pareceram-me já velhos conhecidos. E lá do bondinho, pensei ver uma mulher me abanando e atirando beijos de boas-vindas: ‘bom passeio, tudo de bom, filha querida’”.