Mbyá-Guaranis de Caçapava planejam lançar documentário

Obra deve retratar o Xondaro, uma dança passada de geração em geração há mais de 500 anos e que tem o objetivo de preparar os indígenas para entrar em áreas de mata fechada

Vice-cacique
O vice-cacique e autor do projeto, Arlindo Benites, visitou a Gazeta ao lado da esposa, Alzira, e do filho, Yandel (Crédito: Luiz Felipe de Oliveira)

O povo indígena Mbyá-Guarani que vive às margens da BR 290, em Caçapava, planeja o lançamento do documentário “Xondaro: a dança dos guerreiros”. O projeto foi contemplado pela Lei Complementar n° 195/2022, a Lei Paulo Gustavo, criada ainda durante o período de isolamento decorrente da Covid-19, com o objetivo de fomentar as atividades do setor cultural no país.

O vice-cacique e professor do acampamento Mbyá-Guarani, Arlindo Benites, foi quem inscreveu o documentário para concorrer aos recursos destinados à área de Audiovisual, e o produzirá junto ao cineasta Mbyá-Guarani, Lisio Benites. Segundo o professor, as gravações devem começar em março e abordarão o Xondaro, uma dança que está relacionada à vida prática do povo indígena, servindo para que as pessoas saibam adaptar seus corpos para estar em um ambiente de mata fechada.

Antes de entrar em um espaço como esse, explica Arlindo, é no Xondaro que o indivíduo aprende como se comportar lá dentro.

– Xondaro são guerreiros, são aqueles que dançam. Também significa algo parecido com soldado. Com o Xondaro, aprendemos a movimentar o corpo para saber como nos defender na mata, para não cairmos em nenhum buraco ou ficarmos presos em alguma coisa – conta.

De acordo com o vice-cacique, a prática do Xondaro começa ainda na infância, com cinco ou seis anos, sendo passada de geração em geração há mais de 500 anos, desde o princípio do povo Mbyá-Guarani. A criança deve aprendê-la com o Mestre Xondaro, que, por sua vez, recebeu o conhecimento de outro Mestre mais velho. Cada Estado possui um Mestre, e o do Rio Grande do Sul é Arlindo.

Sobre o que espera do lançamento do documentário, ele disse querer divulgá-lo para pessoas não indígenas, mostrando que há Mbyá-Guaranis vivendo na região de Caçapava, trabalhando e cultivando costumes milenares. Para isso, planeja exibir o documentário nas escolas do município. Arlindo também disse que deseja acabar com o preconceito nutrido contra seu povo:

– Estamos aqui desde 1978, e o município de Caçapava ainda tem dificuldade em reconhecer a existência dos Guaranis nessa região. Há pessoas que falam que nós não existimos. Com esse projeto, eu acho, essa relação conflituosa pode melhorar. Espero que as pessoas possam conhecer melhor a comunidade – afirmou.

O vice-cacique revelou, ainda, que pretende realizar outros projetos após o fim do documentário. De acordo com ele, existem muitos trabalhos que são feitos dentro do acampamento e que a população não conhece.

– Quando terminarmos o documentário, pretendo fazer um projeto só das mulheres do acampamento. Elas também trabalham muito lá, com artesanatos de miçangas, taquaras, de tudo que é tipo – finalizou.