“Sinto que, qualquer dia desses, ele vai abandonar a vida, e fico cá com meus botões, refletindo sobre a existência de todos os seres vivos, animais ou humanos”
Meu cachorro vai completar 13 anos de vida. Chegou lá em casa bem novinho, recém-desmamado e muito ativo. Achei um tanto feinho aquele pretinho, coleira de cabeça quase maior do que o corpo, de orelhas grandes, caídas até a ponta do focinho. Minha filha, ainda criança, botou nele o nome de Toby, não raro, Tobynho.
Incomodava demais por dentro de casa, destruiu as almofadas da varanda da frente, de tomar mate no verão, destripando-as literalmente. Certo dia, atacou uma garnisé recém-chegada no terreiro, e só descobri o mal feito quando me apareceu na porta da cozinha com as tripas e a moela do bicho, assim como me questionando sobre o quê fazer com aquilo. Expliquei a ele, da maneira que aprendi com meu pai, que aquilo não era lá coisa que um animal urbano e civilizado devesse fazer, e nunca mais o fez, de fato.
Logo que ficou crescido, me acompanhava nas caminhadas pela Estrada da Aviação, e muitas vezes o defendi contra empreitadas arriscadas que enfrentou pelo longo percurso. Sempre que eu saísse de carro, ia latindo até a boca da rua, como se constituindo um destacamento percussor em “guarda de honra” ao seu comandante. Corria me acompanhando até a esquina, e por lá já ficava, arrumando alguma confusão com outros cuscos da rua, que sempre aparecem por ali até os dias de hoje.
Certa feita, foi comigo até a Rádio Caçapava, a pé, para fazer um programa Casereando, sábado de tarde, e lá ficou perdido, numa algazarra que havia no Largo Farroupilha. Tive de ir resgatá-lo à noitinha, latindo contra os carros que passavam na frente da igreja.
Em uma ocasião, sumiu por cerca de um ano, totalmente desaparecido e com destino nem sabido. O encontramos bem faceiro e bem tratado, próximo da Estação Rodoviária, quando veio todo refestelado e entrou no carro, que estava de porta aberta. Voltou pra casa e resolveu enfrentar no dente e na unha um pitbull do vizinho. Acabou internado, com muita perda de sangue e séria ameaça de óbito. Sobreviveu, mas nunca mais foi o mesmo.
Havia outro cachorro preto, sem dono, com quem porfiava junto à grade do nosso terreno e que também sumiu do pedaço depois de muitos anos de rusgas intermináveis. Chegou a emprenhar a cadelinha Titica lá de casa, mas a prole não teve sucesso, em virtude da sua incapacidade de dar à luz a um filhote tão grande.
Anda magro e cabisbaixo o meu cachorro velho Toby. Sonolento, de dentadura desgastada, sem ânimo para longas caminhadas, sem ritmo de correrias e de latido choroso contra as luas grandes que costumam cruzar o nosso céu pelo menos uma vez por mês. Virou objeto de brinquedo de outro amarelo, o Bento, que não é o Papa e que recém adotamos, e já não demonstra condições para enfrentar peleias gratuitas, o que sempre lhe agradava exercitar.
Não acho que cachorro seja um grande “anjo de patas”, mas acredito muito na sua amizade e tenho por eles um carinho humanizado. Sinto que, qualquer dia desses, ele vai abandonar a vida, e fico cá com meus botões, refletindo sobre a existência de todos os seres vivos, animais ou humanos: nascemos por um milagre da natureza; vivemos vidas diversas ao acaso; envelhecemos, na sua maioria, e, um dia, apagamos nossas chamas existenciais. Alguns escrevem histórias ricas e significativas, outros de nós vivemos discretos, mas todos importantes e referenciais para o seu grupo de convivência.
Como diria José Mendes, “se vai, como os outros já foram, pros velhos pagos do além, aonde um dia eu também pretendo bolear a perna” Ou não, né? Quem sabe lá não ficamos pra semente, espalhando confusão por esse mundo de malucos beleza que ainda hay por aí…