Essa é uma das coisas mais repetidas no romance Divórcio, de Ricardo Lísias. Lançada em 2013, a obra deu muito o que falar. A ex-esposa do autor não gostou nadinha dessa estória, e inclusive ameaçou processá-lo. Muitos boatos surgiram à época, e é bem difícil saber o que é verdade e o que não é. Dizem até que ela tentou proibir a publicação do livro. Mas por que todo esse bafafá?

Acontece que o narrador e protagonista, assim como o autor, se chama Ricardo Lísias e é escritor. Seu último livro publicado antes dos acontecimentos que vai narrar é O céu dos suicidas, que também é o título do último romance lançado por Lísias antes de Divórcio. Os dois Ricardos escreveram ainda outra obra com o mesmo título: O livro dos mandarins. Com semelhanças como essas, fica difícil para o leitor separar o real do ficcional, e daí a achar que a ex-esposa do autor é igual à ex-esposa do personagem é um pulo!

Na trama – que o Ricardo-autor diz ser toda ficcional –, após apenas quatro meses de casamento, o Ricardo-personagem encontra, sem querer, o diário da então esposa, decide lê-lo e lê o que não quer: coisas bem sinceras que ela escreve sobre ele, sobre o matrimônio y otras cositas más. A relação acaba e um difícil processo de divórcio começa.

Ricardo perde o rumo e vive os primeiros dias em estado de torpor. Diz sentir que está morto, mas não quer se entregar. É então que profere, pela primeira vez, a frase que uso no título desta coluna. Na tentativa de reencontrar seu caminho, aliviar a tensão do momento e combater a insônia que o domina, começa a dar longas caminhadas. Recuperando-se aos poucos, para fechar esse ciclo de sua vida, ele inicia a escrita de um conto chamado “Divórcio”, no qual pretende relatar o que tem passado.

Ao longo do romance, Ricardo vem e vai entre lembranças de antes e de depois de ter lido o diário, do qual vão sendo incluídos trechos para embasar o que é contado. Esses excertos são destacados em itálico e não causam nenhum problema ao leitor. Os que causam certa confusão e pedem atenção redobrada são os diálogos incluídos ao longo narrativa sem nenhuma marcação que os diferencie do que é contado pelo narrador.

 

Referência:

LÍSIAS, Ricardo. Divórcio. 1ed. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2013. 237p.