Mudanças

Desta vez, não foi por um simples querer esta transferência de habitat, mas por uma injunção da vida para a qual não estava preparado

Durante os 35 anos da minha carreira militar, fiz cerca de 25 mudanças, morando em diversas regiões do nosso imenso Brasil e até no Uruguay. Me acostumei a não ter morada certa e nem paradeiro regular. Os filhos adolescentes, normalmente, são os que mais reclamam, por causa das amizades e das enturmações desmontadas. Mudam de escola, de cidade, de amigos e de colegas, e até de costumes.

Quando retornei para Caçapava, em 2007, foi com a decisão de ficar por aqui até enterrar meus ossos, no final da vida. Construí a casa do jeito que desejava e povoei seu arredor de árvores e gramados amplos, para me “esparramar” nas tardes de verão, ante o desfile de caminheiros da Avenida Santos Dumont. Pois, recentemente, agora em 2023, tive de mudar de novo. Desta vez, para o terreno vizinho, quando não foi muito trabalhoso, fisicamente, mudar as tralhas de lugar.

Já me acostumei outra vez, e até ando me distraindo em quantia,  adaptando espaços e ajeitando a “tarecama”. Desta vez, não foi por um simples querer esta transferência de habitat, mas por uma injunção da vida para a qual não estava preparado. Cavacos do ofício de um que não aceita as passividades de ocasião diante dos fatos consumados. Posso precisar mudar de rumo, mas jamais aceitaria a comodidade da inanição existencial.

Sempre fui partidário daquele “Galo de Rinha”, do Jayme Caetano Braun, que afirmava, através de um de seus versos premonitórios, que, “se alguém dobrar-me a espinha, há de ser depois de morto”. Também acredito e professo a máxima de que, a cada limão que a vida nos oferecer, deveremos tentar fazer uma doce limonada, ou até mesmo uma inebriante caipirinha para saborear com prazer.

Não nos cabe, nesta altura do campeonato, ficar chorando pelo leite derramado, esperando que o gato vá lambê-lo depois que esfriar, esparramado pelo piso da cozinha. E, tem outra, ainda mais insolente, que diz que “café pra louco é sem açúcar” e que “mingau quente deve ser comido pelas beiradas”. Num nada mais, nada menos do que adaptar de circunstâncias, quando já “se foi o boi com a corda” ou “fugiu a gata com a cinta”. E outra, “aquilo que não tem solução, solucionado está”, pois não.

Por isso que sempre digo, quando me perguntam como estou:

– Estou vivo e isto já me basta, depois dos setenta e pico de usura, peleando, na luta, sempre. Sem jamais colocar culpa nos outros pelos tropeções do caminho, quando não soube enxergar as “trampas” colocadas para poder desbordá-las.

Então, prossigamos, pois “não tá morto quem peleia”, como já dizia uma ovelha cercada por muitos cachorros, numa empreitada medonha.