Na guerra, todos perdem

A obra começa com a descrição do ambiente no país asiático onde se passa a trama, introduzindo acontecimentos daquele dia, numa época em que muitas revoluções ocorriam. A mais recente se dá entre budistas e o novo governo, amparado por uma potência ocidental

Uma das coisas que mais gosto de fazer é ir a sebos. A gente nunca sabe o que pode encontrar, e os preços são bem mais atrativos. Não à toa os estandes mais concorridos na 49ª Feira do Livro de Pelotas, onde estive no final de semana passado, eram os dos sebos Icária. Eu mesma encontrei por lá O prisioneiro, de Erico Verissimo, novinho em folha.

A obra começa com uma detalhada descrição do ambiente no país asiático em que se passa a trama, introduzindo pequenos acontecimentos daquele dia de final de maio, numa época em que muitas revoluções ocorriam. A mais recente delas se dá entre budistas e o novo governo militar, amparado por uma potência ocidental.

Há a informação de que um carregamento de bombas plásticas teria chegado à cidade, e soldados procuram pelos artefatos. Quem comanda essa operação é um coronel estrangeiro que vive uma guerra particular: separar-se ou não da esposa para se casar com a amante. Além disso, não sabe se realmente acredita em seu Governo quando diz que interfere na revolução para salvar o país asiático. Mas, como soldado bem treinado, deixa parecer que sim.

O contraponto do coronel é um de seus subordinados, o major, que reflete abertamente sobre a guerra, a população do país em que estão e os objetivos do exército do qual faz parte.

Há também um tenente que já está terminando seu tempo de serviço e deve voltar para casa logo. Mas um pressentimento o incomoda. Pela manhã, vira uma estudante budista atear fogo no próprio corpo, uma forma de protesto muito usada então, o que despertou nele lembranças da infância.

A partir desses personagens, Erico reflete (e nos faz refletir) sobre a guerra, em especial o papel da potência ocidental que “ajuda” a restabelecer a paz no país asiático. Não só os militares questionam o que fazem, mas também a população local. Inclusive, uma professora, amiga do tenente, lhe joga várias verdades na cara, para total desconforto dele. E ler O prisioneiro num momento em que dois conflitos ocorrem (Rússia x Ucrânia e Hamas x Israel) enche essa experiência de significados que outra época não traria. Sem dúvidas, na guerra, todos perdem.

Referência: VERISSIMO, Erico. O prisioneiro. 21ed. São Paulo: Globo, 1997. 208p.