Natasha da Silva é a nova Soberana da EENSA

Natural de Santana da Boa Vista, ela é a segunda mulher trans a conquistar o título

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Crédito: Luiz Felipe de Oliveira/Gazeta de Caçapava

A Escola Estadual Nossa Senhora da Assunção (EENSA) elegeu, na terça-feira, 24 de outubro, sua Soberana de 2023, durante gincana realizada em comemoração aos 71 anos da instituição. E a grande vencedora foi Natasha Hemilly Dutra da Silva, uma mulher trans de 19 anos, estudante da modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), da turma 9-1. Ela venceu outras sete concorrentes.

– Pensei que não fosse verdade, fiquei muito feliz. Cheguei a pensar em não ir no dia, porque não acreditei que pudesse ganhar – revela.

Natural de Santana da Boa Vista, a jovem mora há aproximadamente um ano em Caçapava, para onde veio em busca de melhores oportunidades de ensino e de emprego. Ela conta também que, desde criança, sonhava em participar de algo relacionado à área de modelo ou da dança. Então, como estudante da EENSA, viu a oportunidade bater à porta. Para ela, vencer o concurso de Soberana foi muito significativo.

– É muito difícil ver mulheres trans participando de alguma coisa e em algum lugar importante, como foi na escola. Ter vencido o concurso nesse evento, eu achei tudo, sabe? Senti que estava representando a comunidade trans – comenta.

Natasha diz que, desde cedo, percebia em seu íntimo ser uma mulher.

– Sempre agi como uma guria. Não sabia nem brincar com guris, não me sentia confortável em meio a eles. Mas quando estava com outras gurias, me sentia bem. Amava ficar trançando cabelo e pintando unhas. Quando era forçada a ficar em um grupo de guris, ficava sem entender nada. Lembro também que, quando minha mãe viajava, eu ficava na casa da minha avó. Lá, eu me vestia de guria e era a melhor parte do meu dia – afirma.

Para ela, sua transição, aos 17 anos, foi o momento em que descobriu quem era de verdade.

– Eu nem sabia o que era uma mulher trans. Uma amiga me convidou para ir à casa dela e me mostrou algumas fotos de mulheres trans. Eram todas lindas, belíssimas. E eu fiquei: “Meu Deus! É isso que eu quero ser, é isso que eu sou!” – relata.

Para quem está indeciso sobre a transição, Natasha diz:

– Se for o que realmente vocês sentem, se arrisquem. O medo faz parte quando a questão é sobre se aceitar como é. O dia a dia não vai ser fácil, por causa do preconceito. Mas ser uma pessoa “incubada”, digamos, traz muito sofrimento. Na minha visão, entre enfrentar o medo de se assumir e sofrer por não ser quem se é, é preferível se assumir. Imagina como é triste ficar ali presa, sem poder se sentir a pessoa que tu realmente é? As pessoas têm que entender que é preciso nos respeitar.

Para o futuro, a jovem conta que pretende ir atrás de outra oportunidade.

 – Um sonho que eu tenho é ser uma das soberanas da Festa do Azeite de Oliva de Caçapava. Tenho muita vontade de participar desse evento, acho muito lindo. Seria uma grande conquista. Imagina só a visibilidade que isso daria a todas as mulheres trans? Toda Caçapava iria ver e comentar. Se houver a Festa ano que vem, eu pretendo, sim, participar – conclui.

Crédito: EENSA/Diculgação

O concurso

O concurso de Soberana da EENSA, que consiste em um desfile das candidatas ao título perante jurados que elegerão a vencedora, faz parte de uma gincana que ocorre em anos alternados e já é uma tradição da escola. Segundo a instituição, o evento acontece desde a sua fundação, em 1952, e inclui outras atividades, como escolha do mascote, concurso de dança e apresentações artísticas. Ainda de acordo com a escola, em 2022, a Soberana eleita também foi uma mulher trans, uma aluna chamada Isabelle.

Pessoas trans

Uma pessoa trans, ou transgênero, é aquela que não se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu. Ela sente um desconforto, pois não reconhece seu gênero no próprio corpo. A partir de então, uma transição é realizada, de modo que a pessoa se sinta mais completa, isto é, como sendo si mesma. Nesse sentido, identidade de gênero e sexo biológico são coisas diferentes uma da outra.