Outro detalhe interessante é que algumas páginas são estruturadas de forma a mostrar graficamente ao leitor o turbilhão de memórias que vão sendo acessadas por Severino quando revive os últimos instantes da vida das pessoas cujas mortes investiga
Um laboratório no meio do nada, um tiro e Severino deixando um rastro de sangue por onde passa. É com esse panorama que Ian Fraser inicia A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê.
Severino, um terráqueo com olho e braço mecânicos que, usando óleo de dendê, mostram os últimos momentos da vida das pessoas para ele, mora em Cabula XI. Muito parecido com a Terra, este planeta fica também na Via Láctea, porém mais ao leste, na órbita de Sucupira.
O ano é 2577 e quem comanda o mundo são a Federação Setentrional e a ProPague, maior produtor, refinador e distribuidor de óleo de dendê, principal combustível da época. Severino e seu amigo Bonfim são investigadores e estão atuando em um caso um pouco complexo. A garçonete de um bar disse a Bonfim que um amigo fora preso, mas havia falhas no trabalho dos Carcarás Carmesins, o mais alto escalão da polícia, que assumira a investigação porque o suspeito é afilhado de Dinha, a líder das Paladinas do Sertão, um grupo de resistência à Federação.
Enquanto isso, em Batoidea, outro planeta da órbita de Sucupira, a Carcará Carmesim Antonieta Capitolina Macabéa investiga o assassinato brutal de um colega. Esse é um caso nebuloso, pois nem ele, nem seu parceiro tinham autorização para trabalhar ali. Após analisar a cena do crime, ela se dirige ao hotel onde o parceiro do Carcará está hospedado, a fim de obter informações que a ajudem a elucidar o caso, mas o encontra morto, da mesma forma que o primeiro. A única diferença é um nome escrito com sangue na parede: Olho de Dendê.
A descrição das cenas é tão bem feita que me deixou com vontade de ver a trama adaptada para o cinema. Outro detalhe interessante é que algumas páginas são estruturadas de forma a mostrar graficamente ao leitor o turbilhão de memórias que vão sendo acessadas por Severino quando revive os últimos instantes da vida das pessoas cujas mortes investiga.
Além disso, os cenários são inspirados no Norte e no Nordeste brasileiro, este emprestando a maior parte dos elementos. Cada descoberta de uma nova referência à cultura e do uso de expressões nortistas e nordestinas é um novo fascínio causado pela criatividade de Ian Fraser.
Referência:
FRASER, Ian. A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê. 1ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022. 304p.