O dia anunciado

O rio, na poesia da escritora mineira que nos chegou nesses momentos, só quis passar. Não queria fazer mal a ninguém. Mas, atravancaram seu caminho, poluíram suas águas

Na instabilidade de nossos dias, quando lavar a roupa da casa é uma dúvida, dependendo se vai chover ou fazer sol para secar; ou se a festa de aniversário poderá ser ao ar livre – tipo piquenique – ou mais seguro em salões fechados… quem pode saber? Uma previsão meteorológica, quase provada, está enchendo de medo os moradores dos lugares mais prováveis em que as águas dos rios Jacuí e seus afluentes vão passar, antes de chegar ao mar. Seus parentes assustados, insistem em chamá-los para suas moradas, no meu caso em nossa cidade, dos lugares seguros, livre de inundações.

Dos quinhentos e tanto municípios gaúchos, uns cento e poucos estão livres das cheias, e Caçapava é um deles, graças a Deus. E nas temperaturas mais geladas, é ele que mais aparece nos noticiários.

Mas as expectativas para o “dia anunciado”, nesta semana, todos os planos ficam em suspenso. Tudo vai depender do desenrolar desse fenômeno.

Laranjal está no caminho, e lá se espera a todo o momento que as águas empurradas de Porto Alegre para o oceano se espalhem pelas ruas, avenidas, levando detritos, cobrindo pontes, chegando às casas, quintais, pomares, plantações, lavouras… Os prejuízos já começaram a acontecer em todos os ramos de atividades. Moradores lastimam suas perdas e o abandono dos lares para abrigos improvisados. Não é o mesmo que a vida normal. Rompem-se laços de convivência com familiares espalhados em casas de amigos; os vizinhos se afastam; agora são outros que dividem seus espaços nos salões de clubes, igrejas, escolas!

Porém, este “dia anunciado” será o epílogo de toda essa catástrofe. Aterrador, sim, mas nos dá esperança de que as águas finalmente sigam o seu curso normal, passando pelas Lagoas e jogando-se ao mar, na cidade de Rio Grande.

A vida vai mudar num ápice. Não de forma compassada, pois as urgências estão focadas nas futuras habitações. E até em novas localizações para assentar as moradas. As preocupações com a Saúde, a Educação, a Segurança, a Justiça dobrarão de intensidade, pois o flagelo mostrou o lado sombrio do povo, do desempregado, analfabeto, vileiro e ribeirinhos.

Governantes, parlamentares, ministros terão de debruçar-se sobre estudos das intempéries, dos nossos relevos, cursos dos rios, planejar e abrir o cofre do Erário Público para essas necessidades de mudanças. Pois até algumas cidades situadas em vales encharcados terão de mudar de lugar. A palavra chave é Prevenção. Não deixar que aconteça de novo tal tragédia.

Nosso Rio Grande mudou, não é mais o mesmo. De celeiro do país, passou a ser socorrido pelos demais Estados da Federação. A quem agradecemos, comovidos.

Também será a hora de mudarmos nossas atitudes. Terminar com o desperdício e repartir com quem mais precisa aquilo que nos sobra.

Cuidar o lixo. Que ele seja devidamente tratado e encaminhado, e não como até agora quando ele foi um dos principais responsáveis pelas águas que não escoaram devidamente. Respeitar a natureza, a terra que nos alimenta, os rios, as florestas… ela fornece energia, estimula estudos e ofícios para que cumpra o seu papel em nossas vidas.

Quero pensar que, depois deste Dia temido pelos gaúchos, a vida retome seu curso, em paz, sempre à frente, com fraternidade, fé e esperança em dias melhores.

O rio, na poesia da escritora mineira que nos chegou nesses momentos, só quis passar. Não queria fazer mal a ninguém. Mas, atravancaram seu caminho, poluíram suas águas… e ele transbordou de suas margens, porque não teve outro jeito de realizar o seu destino. Chegar ao mar.