O dia da saudade

“Seus pertences materiais, ela os deixou, mas seus gestos, atitudes e bondade ficaram por aí, nas lembranças de pessoas agradecidas”

Há um ano, ela estava ao meu lado, providenciando flores e missas para os nossos queridos falecidos. Combinávamos os horários e íamos juntas para as visitas ao cemitério, neste dia da Saudade. Hoje, vou levar-lhe flores e enfeitar sua última morada, que tem a lápide carinhosamente colocada pelos filhos, com dizeres que a identificam tão bem e a saudade que deixou entre nós: “Nossa andorinha voou. Obrigado por tanto amor. Para sempre em nossos corações”.

Sua casa e seus objetos ainda guardam o seu perfume, e também as lembranças que não cessam de acudir-nos, como sua alegria ao atender à porta e ver chegarem seus afetos. Éramos calorosamente acolhidos! Nós, familiares, os amigos e as pessoas que precisavam de seu apoio. Ninguém saía de mãos vazias. Ela nos enriquecia com sua ternura e carisma.

Seus pertences materiais, ela os deixou, mas seus gestos, atitudes e bondade ficaram por aí, nas lembranças de pessoas agradecidas. Quantas vezes fomos abordadas na rua, até por pessoas estranhas, que se diziam tocadas pela aura que exalava. Sentiam o bem que enchia o seu coração e que desejava a todos deste mundo.

No banco, ao pagar meus tributos, lembrei-me dela, de seu caderno onde anotava as contas, o que pagar, o que comprar… E a cada fim de mês, afligia-se pela demora da chegada dos boletos de condomínio e outros, que seguidamente pagava com juros, por culpa dos Correios.

Agora, ela está livre de todos os encargos. Livre como um passarinho, em especial as andorinhas, como a comparávamos. Pois estava sempre pronta para voar a outras paragens.

Que companheira de viagem admirável ela foi! Disponível para todos os programas e transtornos, que sempre os há. Não precisará mais abastecer o carro e pôr-se na estrada com seu zeloso motorista, que até secretário se tornou. E amigo. Não será necessário arrumar nem desfazer malas que a cansavam.

Deixará de preocupar-se com a perda de cartões de banco, chaves e documentos, que sempre encontrava em lugares trocados, em outras carteiras, em outras bolsas.

Os destinos do Brasil, do mundo, de nossa juventude e os problemas das crianças e dos idosos não serão mais preocupação sua. Os anjos a levarão para onde quiser, agora. Tenho a certeza de que seu desejo será reunir-se com nossos queridos pais, a filha Maria Lúcia, o esposo Nélio, os tios, os Dindos, primos, sobrinhos…

Quero imaginá-la tomando chá com as amigas Áurea, Leila, Maria Gervásio, Leah, Maria Luíza e outras que a precederam. Deve estar, no momento, orando por nós, aos pés de Maria e adorando a Jesus. É o céu que imagino para a inesquecível irmã e amiga Maria Augusta. Só amor e alegrias. E muita paz.

Em uma de suas crônicas ela escreveu, referindo-se a uma temporada na praia: “Esta paz tão profunda que me envolve deve se chamar felicidade.”