A estória que lhes conto é real. História, portanto… se bem que com alguns floreios agregados para despertar um interesse maior pros lados da comicidade ou até para fugir da tragédia grega
Conforme deva ser do conhecimento da grande maioria das pessoas que já sabem ler, o galo é o marido da galinha, no caso, das galinhas, porque ele atende a todas disponíveis num terreiro. Não é um sheik, mas possui várias esposas. Muitas vezes, forçando a relação, perseguindo, correndo atrás e violentando sem preconceitos as fêmeas indefesas, nem sempre, a fim de fazer amor com elas. Na verdade, galar para que o ovo possa germinar e gerar os pintinhos que descascam depois de 21 dias de choco (esclareço esses detalhes porque tem muita gente boa que não conhece os pormenores da reprodução animal kk).
A estória que lhes conto é real. História, portanto… se bem que com alguns floreios agregados para despertar um interesse maior pros lados da comicidade ou até para fugir da tragédia grega.
Por muitos anos, já escrevi aqui, fui criador de garnisés, já andaram na casa dos cinquenta. Certo dia, ganhei um frango carijó descascado de uns ovos vindos da Argentina, de porte altivo, tamanho robusto e de um cantar repetitivo e inconveniente a tarde, de noite, de madrugada e até de manhã daqueles de não deixar alma nenhuma da casa pregar o olho. – Galo bem chato não me deixa dormir e vem cantar bem na janela do meu quarto. Aí, emprestei o cantante para o vizinho da padaria que o levou para reprodutor no sítio pros lados da aviação, onde possui muitas galinhas.
Belo dia, ao entardecer, me apareceu o Beto no portão, com um saco de aninhagem nas costas: – vim fazer um negócio com o senhor. Tava com este casal numa encerra pequena e preciso me desfazer para repovoar com umas franguinhas poedeiras. Pensei que o senhor haveria de gostar, porque agora anda criando bicho grande.
Comprei o casal por 100 reais: um frangote carijó pena de seda, maior do que aquele outro, e uma galinha tordilha com cara de velha.
Piorou a situação. O frango começava a cantar às duas da manhã e se prolongava até depois das dez. Acho que esses bichos nunca dormem. Então, o garnisé sebright remanescente do terreiro que andava silencioso, começou a cantar de novo, em contraponto ao forasteiro. Ai fui eu que não dormia mais.
Semana passada, no lusco fusco do final do dia, inicio da noite, pé ante pé, fui no galinheiro e peguei o grandalhão por uma perna e já tratei de torcer-lhe o potente pescoço. Água fervida, bicho depenado, sapecado na chama do fogão a gás, iniciou-se o ritual antigo de abrir, lavar, e repartir os pedaços para uma futura massa caipira.
Guardado o bicho no freezer, me parei de pensador: o homem também é um bicho malvado, mas matar para comer sempre soube que não era pecado ou crime ambiental. Ou não?