Um estranho chega a Iping durante uma forte nevasca e se dirige a uma pensão, onde pede um quarto para descansar e uma lareira para se aquecer. Digo estranho não só por ser um forasteiro, mas também por estar com o corpo completamente coberto, dos pés à cabeça, incluindo óculos escuros. O frio até poderia justificar estes trajes, porém, se fosse apenas isso, por que não os tirou ao entrar?

A dona da pensão, Sra. Hall, pôs a mesa para servir uma refeição ao recém-chegado, feliz por ter um hóspede numa época em que não é comum a presença de visitantes, e voltou à cozinha. O forasteiro aproveitou que estava sozinho para tirar o chapéu e o sobretudo, o que fez a Sra. Hall tomar um grande susto ao regressar, pois a cabeça e as orelhas dele estavam cobertas com bandagens, e o rosto escondido atrás de um lenço.

De início, o homem pareceu ser uma boa pessoa, mas, aos poucos, começou a se mostrar agressivo. O primeiro sinal aparece quando descobre que a entrega de sua bagagem ainda demorará. A Sra. Hall explicou os motivos, mas ele insistia em ter suas coisas o quanto antes, justificando que era um cientista e tinha urgência em seguir sua pesquisa.

Quando os equipamentos chegaram, o homem logo se pôs a trabalhar. Mas ficou tão nervoso, esbravejando sozinho, que a Sra. Hall se assustou. Um forasteiro aparecer na cidade naquela época do ano já seria motivo o suficiente para despertar a curiosidade das pessoas, nessas condições, cobertas de mistério, então… Todos queriam saber mais sobre ele, mas tudo o que disse foi que sofrera um acidente no trabalho e, por isso, procurava estar sozinho.

O que não conta é que o resultado desse acidente foi sua total invisibilidade e uma crescente propensão à violência, que o levará a ultrapassar todos os limites.

Assim é O homem invisível, de H. G. Wells, o inventor do romance científico. Esta obra, publicada pela primeira vez em 1897, mistura momentos de tensão e de apreensão a trechos cômicos, e nos mostra que, ao contrário do que pode parecer, ficar invisível tem mais desvantagens do que vantagens, e, no fim, o invisível é bem visível.

 

Referência:

WELLS, H. G. O homem invisível. Tradução: Alexandre Barbosa de Souza e Rodrigo Lacerda. 1ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2019. 232p.