O milagre do dia

Por que essa cara amarrada atrás dos guichês, balcões, filas e gente que mal cumprimenta? Experimentar um sorriso, uma palavra amável, ceder o lugar na fila, quantas oportunidades de promover o bom humor e a boa vontade

Abro a janela e vejo, com surpresa, não a chuva que esperava, mas um sol radioso que me alegrou. O milagre do dia. A satisfação só não foi completa ao ouvir as notícias de Porto Alegre e cidades invadidas pelas águas. Imagino o desencanto das vítimas que ainda estavam no trabalho de limpeza de suas casas e tentando recomeçar. El Niño, ou sei lá que outro fator, teima em devastar, trazer o desânimo e a incerteza para os moradores das regiões atingidas pelas cheias.

Mas o Gaúcho está acostumado com as intempéries da vida. Não se entrega assim no mais. E continua na medida do possível a construir, plantar e criar nos seus pedaços de terra. E proteger seus lares com provisões de mantimentos e de muito amor.

Nuns vídeos da família, enquanto era servido o café da tarde, pude apreciar a vida acontecendo nas festas infantis do mês de junho: aniversários dos pequenos e mesversários comemorados com balões, bolos e petiscos, ao som de músicas infantis, música e a graça na dança dos pequenos.

No campo, as pastagens verdes mostram ovelhinhas novas, umas pretas, outras brancas, todas numa alegria incontida que as movimenta naquele fofo e suculento tapete. Quantas são e como podemos contá-las, alguém perguntou. Só colocando-as no brete, foi a resposta. Daí, faz-se que passe uma a uma pelo corredor, até voltarem todas ao campo.

É um trabalho que exige cuidados, mas compensador. É como diz o Evangelho: O Bom Pastor conhece suas ovelhas, e elas ouvem sua voz e sentem-se seguras.

Ah, se a vida ocorresse conforme os planos do Criador. Haveria tempo de plantar, criar ou colher e faturar. Tempo de união em cooperativas que disponham de maquinários para quem precisa no momento. Tempo de combater o joio e não deixar que se alastre para os campos vizinhos. Tempo de comemorações das safras e auxílio nas perdas.

As relações humanas são complicadas. Ainda há seguidores das penas de Talião, olho por olho, dente por dente. O termo retaliação deve ter-se originado dessa palavra, que era a lei de antes de Cristo.

Dizem que é mais difícil amar alguém do que ter-lhe antipatia. Mas o segredo de amar ao próximo é só colocar-se no lugar do outro. Por que essa cara amarrada atrás dos guichês, balcões, filas e gente que mal cumprimenta? Experimentar um sorriso, uma palavra amável, ceder o lugar na fila, quantas oportunidades de promover o bom humor e a boa vontade!

A vida é um eterno aprendizado. Mas a conclusão é sempre a mesma, só o amor constrói.