O trabalho e a vida

Vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver?

Afonsina – nome de batismo que sempre detestara – olhou desanimada a fila à sua frente. Na maioria, idosos, seus contemporâneos que a vida maltratara. Ou melhor, o trabalho forçado é que lhes rendera hérnias, artrites e um eterno queixume que desabafavam em filas de Banco ou em UPAs.

Ela também era assídua nessas esperas, e a cada semana sua coluna a obrigava a procurar algum atendimento médico que a aliviasse. Mas, qual, os remédios eram sempre os mesmos, passava a dor no momento, mas…

Dessa vez perdeu a paciência. Cansada de esperar e ouvir os pormenores das doenças das companheiras de fila, resolveu sair para tomar um ar saudável.

A praça ali em frente pareceu-lhe tão bonita, flores brotando em tufos, alamedas com as sombras das árvores refrescando o ar e um banco providencialmente à sua espera para descansar suas pernas cansadas e cheia de varizes.

Afonsina, para os íntimos Sina, ficou a observar os passantes. Desfilavam estudantes rumo à escola, pedreiros e carpinteiros portando ferramentas para o trabalho, mas também uns jovens barbudos e mal vestidos, outros até que bem apessoados, que se aproximavam sorrindo das pessoas e pediam uns trocados para um lanche. Nem pensar em atender tais pedidos. Seu dinheirinho suado não vai alimentar vadiagem nem vícios. Jovens que podiam estar trabalhando, estudando, com um futuro promissor à espera, viram marginais, sem rumo e sem ajudar a quem de fato precisa.

Sina alegrou-se ouvindo o assobio alegre de um jovem empurrando um carrinho de mão com os ramos podados das árvores da praça. Parecia feliz por ter um trabalho. Talvez fizesse planos de levar uma flor à namorada, convidá-la para um passeio! Que é isso, Sina, estás romanceando?

O que é a vida, pensou, lembrando-se de um ex-patrão que era Juiz de Direito e levava trabalho para fazer em casa, pois os processos se acumulavam e ele não via o fim daquela montanha de pastas por abrir e analisar. Não tinha tempo para a família, nem para festas ou férias na praia, e foi ficando doente, sem rumo, até que um AVC o levou.

Afinal, concluiu Sina, vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver?

Por que, trabalhando tanto, ela nunca fizera uma poupança, nem uma viagem de férias, só tendo um domingo para descansar? Mas, qual, em vez de descanso, tem a roupa da própria família para lavar e consertar, precisa dar um trato na casa, no pátio e abastecer a despensa.

Mas, eis que uma luz brilhou em sua mente. Por que trabalhar tanto para ganhar tão pouco? Daí veio a ideia luminosa: valorizar o seu trabalho. Cobrar pelo tempo, esforço, esmero, qualidade. E diminuir as tarefas. Em vez de trabalhar em dois empregos, ficar só no mais conveniente, com patrões que a tratem com respeito, pelo nome, e não como aquela patroa que só lhe dava ordens, sem uma palavra de estímulo. Pois daí em diante pretendia trabalhar cantando ou ouvindo música na casa daquela senhora que a estimava e já lhe dera essa mesma ideia.

E lhe sobrariam horas para curtir a própria família, acompanhar os estudos e projetos dos filhos, estimular o marido, enfim, deixaria de ser figurante para transformar-se na protagonista de sua história.

O trabalho é uma bênção que enobrece, dá frutos e alegrias. Mas a vida é o maior presente que Deus nos deu.

Neste dia 1º de Maio, quero saudar os trabalhadores de nosso mundo. De carteira assinada ou autônomos, profissionais de todos os ramos, da Saúde, Segurança, Educação, Justiça. Músicos, poetas, pintores e de todas as artes. E nossos habilidosos artesãos com sua originalidade. E a homenagem a todos eles que suprem nossas necessidades materiais e espirituais de cidadãos.